Na Grande Área - Armando Nogueira
O vôo é Belo Horizonte-Rio. O oval da janelinha do avião recorta sereno azul do céu. Não vejo, na rota, uma única nuvem. Gosto quando o avião anda o tempo todo no meio de um rebanho de carneirinhos. São os cirros, pequenos flocos de gelo que não incomodam ninguém. Pelo contrário, enfeitam o cenário quando o avião voa muito alto.
De repente, o avião começa a sacudir. Deve ser uma turbulenciazinha, penso. É coisa passageira. Já, já, acaba. Por cautela, confiro o cinto de segurança. Está ajustado. Aprendi que, em vôo, nunca se desata o cinto. Num solavanco, você pode quebrar a cabeça no teto. Em poucos minutos, porém, sinto que a barra vai engrossando: o que era um leve balançado agora é um balançado severo. O avião chacoalha demais.
Não me sinto bem na turbulência. Não tenho medo, mas me incomoda. Quem disser que aprecia um vôo com o ar remexido está querendo dar uma de machão. É como alguém dizer que gosta de viajar de carro numa estrada esburacada. Papo furado.
Ligadíssimo no fenômeno, desconfio que o rebolado do avião pode estar acontecendo, aqui, bem embaixo da minha poltrona. Dou uma olhada, mais detida e tomo um susto: vejo uma pacata sacolinha de plástico, coisa de nada, se debatendo em si mesma como se o mundo fosse desabar céu abaixo. Me lembro, então, que, na estada em Belo Horizonte, tinha ganho, de presente, duas camisas: uma do Atlético, outra do Cruzeiro. Desavisado, caíra na besteira de enfiá-las no mesmo saco.
Pra que? Na verdade, estavam estrebuchando dentro daquele embrulho, não duas singelas camisas, e sim duas multidões enfurecidas, duas almas colossais que não podem se imaginar juntinhas, como farinhas do mesmo saco. Foi como se, por temeridade, a polícia deixasse, um dia, as duas torcidas misturadas em tarde de decisão Cruzeiro x Atlético. Ou como se alguém soltasse no mesmo quarto uma jaguatirica e um cão de caça...
A muito custo, separei aquelas duas criaturas que ali estraçalhavam, ameaçando pôr abaixo o avião. Em um minuto, o vôo serenou completamente. O avião virou tapete persa no ar. O comandante, do alto do seu quepe estrelado, então, pegou o microfone e deu o ar de sua graça: avisou a todos nós que o avião tinha passado por uma turbulência de céu claro, provocada pelo encontro de duas ou mais correntes de vento que se estranham. E até explicou que existe uma sigla americana pra definir o fenômeno: chama-se CAT (Clear Air Turbulence). Ou: turbulência de céu claro.
Fiquei na minha. Só eu sabia, a bordo, o que e porque tinha acontecido tamanho rebuliço naquele vôo. Mais tarde, chegando em casa, tratei de guardar uma camisa no armário do quarto e a outra, bem longe, numa gaveta do meu escritório...
Wanderley na berlinda





