Tênis, em poucas palavras: piso rápido é saque e jogo de rede; piso lento, saque e jogo de fundo. Guga e Safin jogaram a final de Indianápolis, ambos terçando, o tempo todo, as principais armas do saibro que são os golpes de base, profundos, cruzados e paralelos. Voleio, que é a patente da quadra rápida, não houve na partida; e se houve, foi um na vida, outro na morte.
De qualquer modo, talvez dê pra concluir que a essência do jogo seja, mesmo, o tênis de quadra lenta. Afinal, já há mais tenista de fundo ganhando título em piso rápido do que o contrário. Os dois finalistas de Indianápolis, tal como o vencedor de Cincinatti, Enqvist, são especialistas de terra batida. Já Sampras e Rafter, pra citar dois expoentes do saque-voleio, alguém, por acaso, se lembra de tê-los visto conquistar um troféu expressivo em quadra de saibro? Que me conste, jamais.
Especulações técnicas à parte, a fase de Guga, no momento, é notável. O rapaz ainda não fez 24 anos e já me parece ter chegado ao esplendor, no quesito auto-confiança. Amadureceu, mesmo, técnica e mentalmente. O ar de angústia que lhe vincava o rosto, nas horas adversas, ficou pra trás. Agora, o que Guga ostenta em quadra é um olhar firme, altivo, de quem conhece e domina o seu poder de fogo.
Nos dois últimos torneios, Guga viveu alguns transes de amargar. Quando menos se esperava, ele emergia do fundo do poço, arrebatador. Só o grande campeão tem o dom de ressurgir das cinzas de uma derrota iminente. Mas, por favor, não pensem os sôfregos, os extremados, que Guga seja infalível. Ele ainda perderá e vencerá muitas vezes, no carrossel do circuito mundial. Não esqueçam que o nosso herói é uma criatura humana, sujeita a tropeços, na quadra como na vida.
Uma coisa, porém, me parece cristalina: Guga já é um dos mais perfeitos tenistas da constelação do tênis. Quem o diz não é só o ranking que já o alçou ao ponto mais alto da pirâmide. É, sobretudo, o rico arsenal de golpes que consagram seu talento: é o serviço perfurocortante, são as devastadoras cruzadas de direita, são as inapeláveis paralelas de esquerda que deixam perplexo o adversário e que em nós – pelo menos em mim – provocam um misto de felicidade e orgulho.
Enfim, esse Guga é uma das mais felizes invenções do esporte. Tanto melhor que tenha nascido por aqui.

Meu herói dos ares

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