NA GRANDE ÁREA - Armando Nogueira
Há dias, estive, rapidamente, com Chiquinho da Mangueira, agora, também, Chiquinho do Maracanã. Foi uma boa oportunidade pra lhe fazer uma pergunta que, por descuido, acabei não fazendo. Então, faço-a, agora, de público: por que a ótima idéia de fazer a calçada da fama acabou ignorando a figura do goleiro?
Venho de tempos em que o goleiro, pelo menos no Brasil, era o único ser maldito do futebol. Ao atacante, louvação; ao goleiro, execração. A crítica impiedosa, tanto na arquibancada como nos jornais, fazia crer que o frango era uma invenção do goleiro brasileiro. No reino da pelada, o perna-de-pau, se quisesse uma chance, fosse se virar no gol, que sempre foi o reduto dos deserdados.
A discriminação vinha de fora e de longe. Conheço, de leitura antiga, uma sentença inglesa que diz assim: Um time de futebol é formado por 10 jogadores e um goleiro. Quer dizer: o goleiro não pertence ao time. Não chega a ser um jogador: é um apêndice...
E, no entanto, não existe no futebol posição mais fundamental. O time que perde um artilheiro, em plena batalha, reorganiza-se e sobrevive. Privada do goleiro, qualquer equipe entra em pânico. Sem falar da nobreza do ser que ali está, solitário, carregando na ponta dos dedos, como um estorvo, o dom da infalibilidade.
Vamos dar como procedente a má vontade unânime que, noutros tempos, se abatia sobre o goleiro, qual maldição. Nos dias de hoje, porém, nada mais injusto que desfazer do grande herói das traves, última instância do jogo. Atrevo-me a afirmar que, nos últimos 30 anos, o jogador que mais se aperfeiçoou no futebol brasileiro foi justamente o goleiro. O treinamento redobrou de intensidade. Surgiu o preparador de goleiro, um especialista da posição que chega ao esmero de gravar em teipe o seu goleiro durante o jogo, pra depois, numa conversa a dois, analisar e corrigir defeitos de colocação, de antecipação, de movimentação e destreza.
Atualmente, o profissional mais solicitado, nos treinos diários, é longe, o goleiro. São horas e horas, saltando, mergulhando, levantando, reerguendo-se, atirando-se nos cantos a defender bolas que chegam, simultaneamente, de todos os lados, num bombardeio que leva o goleiro à mais profunda exaustão. A exigência é tamanha que sou capaz de jurar a vocês: se Romário fosse goleiro, já teria encerrado a carreira só pra se ver livre do massacre que é a rotina de um treinamento embaixo dos paus.
Em muitos anos de observação, posso assegurar que o goleiro brasileiro, é, hoje, a peça que menos erra, num jogo, em qualquer das grande equipes. Os artilheiros perdem gols em penca, os armadores erram passes de um metro, os zagueiros dão furadas cósmicas. Pois os goleiros, amigos, raramente um goleiro entrega o ouro ao bandido. Pelo contrário, a maioria está salvando seus times, em instantes cruciais. Pode-se alinhar, no mínimo, dez goleiros de classe internacional nos grandes times brasileiros.
A calçada da fama do Maracanã está cheia de pés ilustres mas e as mãos? Onde estão as mãos que detêm sua presa, a bola, com destemor e estilo? Ninguém pode duvidar que o futebol não seria a paixão que é hoje sem as mãos videntes, sem as mãos milagrosas do goleiro, anjo-da-guarda da equipe, homem de mistérios, águia solitária, no dizer de Vladimir Nabokov que, antes de se consagrar como notável escritor, costumava passar suas jovens tardes de domingo, fechando o gol, no timezinho de seu bairro, em Londres.
RÁPIDAS E RASTEIRAS
- Gamarra, rima rica de garra; Edilson, rima rica de Denilson. É o Flamengo, por fim, indo ao encontro do sonho de sua colossal torcida.
- Já estava escrita a crônica de abertura da coluna, quando consegui falar com Chiquinho do Maracanã. Então, ouvi dele que será feita por ele uma comissão de jornalistas pra eleger os cinco melhores goleiros que fizeram história no Maracanã.
- O infausto episódio do doping de Athirson levou a Vigilância Sanitária a fazer uma profunda investigação no comércio de farmácia de manipulação. Ficou constatado que, no caso do zagueiro do Flamengo, os comprimidos de um dos frascos estavam contaminados da substância Fen-Proporex; senão por má fé, certamente, por negligência.
- A presença de Edmundo gerou no Santos um mal-estar, aparentemente já superado: o elenco estaria amargando atraso de salário e o clube, gastando uma fortuna com um jogador de difícil convivência em qualquer lugar.
- Ainda Edmundo: um criminalista que não me autorizou a citar seu nome, adverte que, a qualquer momento, o Superior Tribunal de Justiça pode concluir que estava coberto de razão o juiz que condenou Edmundo a seis anos de prisão em regime semi-aberto. Ai, então, Edmundo teria que cumprir a ordem de reclusão noturna no Rio de Janeiro e não em São Paulo.
- Excelente a entrevista de Tostão nas páginas amarelas de Veja. Perguntas bem feitas, respostas bem dadas. Antes, como jogador, hoje, como comentarista, Tostão só dá boas lições de técnica e de ética ao futebol brasileiro.
- As três irmãs do basquete - Helen, Silvinha e Cintia - me distinguem com um presente: a camisa da seleção, autografada pelas três. Assim, fica enriquecida minha coleção, em que figuram camisas de Paula, Hortência, Ana Paula, Hilma, Ida, Fernanda Venturini, Ana Moser e Virna. Doces relíquias.
- O professor Eduardo De Rose não vê, com esperança, a figura de Sanderley Parrela na equipe atlética do Brasil em Sidney. Acusado de doping, o velocista brasileiro não deverá ser julgado antes dos Jogos.





