Uma boa lição terá ficado pra Luxemburgo do jogo com a Argentina, no meio da semana: não se deixa, impunemente, mofando no banco de reservas, jogadores como Alex e Ronaldinho Gaúcho. Com eles, a seleção reconquistou a confiança da multidão. Com eles, o ataque reluziu, revivendo tabelinhas, toques maneiros, aquelas preciosidades que são coisas tão nossas e que o futebol brasileiro vem perdendo, há algum tempo, vítima da rigidez dos esquemas professorais.
Deus do céu, como os técnicos às vezes me soam inoportunos, com suas táticas, às vezes obtusas, com suas teorias quase sempre desconcertantes! Engraçado é que Wanderley Luxemburgo, antes de chegar à seleção, era de uma sensatez admirável. De repente, parece que perdeu o senso prático que, no Brasil, se nutre da improvisação, do ambíguo, do jogo-de-cintura, valores que Ronaldinho Gaúcho encarna à perfeição.
Rivaldo falou e disse...
Ainda o jogo de quarta-feira, Brasil, 3 x Argentina, 1: até que enfim, Rivaldo acerta uma. Raramente, ele tem sido feliz, quando fala. Invariavelmente, impressiona mal porque pensa mal. Pois quando a seleção perdeu em Assunção, Rivaldo declarou aos quatro ventos: ‘‘O que nós, jogadores, temos que ter é vergonha na cara’’.
A seleção está alguns furos abaixo do nível técnico que consagrou o futebol brasileiro. Quarta, porém, as notórias limitações da equipe acabaram bem disfarçadas por uma soma de virtudes que provêm da alma, a saber: coragem, ambição, espírito de luta, solidariedade, concentração, lealdade na disputa – enfim, alma, tutano, caráter, vergonha na cara.
Rivaldo estava coberto de razão.
Soberba, nunca mais!
Dizem, aqui e ali, que Alex não entra sempre na seleção porque tem altos e baixos, na mesma partida. É intermitente. Pois olha, amigo, prefiro as alternações de Alex à constância de qualquer medíocre. Uma equipe estará sempre muito mais bem servida com o rebrilhar ocasional de um craque do que com a permanência opaca de tantos armadores que já passaram pela seleção.
Então, cabe perguntar: por que, até quarta-feira, a seleção desfilava pelo campo transpirando ares de superioridade? A soberba nunca deu camisa a ninguém. Resultado: antes do fim do jogo, todo mundo já caía de pau. A reação do vestiário brasileiro era a mesma de sempre: a torcida é ingrata, os jornalistas são ressentidos, invejosos. Wanderley Luxemburgo teria chegado à intolerância suprema de não ler jornal, nem ouvir rádio, descontente com as críticas à performance da equipe. No fundo, vaidade pura. Ou, quem sabe, encenação porque, no recesso dos vestiários, o técnico era o primeiro a cobrar seriedade, dignidade.
Frontal e ambiciosa
Da Argentina, deve-se dizer que, mesmo perdendo, demonstrou que é uma equipe de respeitável sintonia. Afinada pelo diapasão de jogadores da dimensão de Verón, de Ortega, de Zanetti, de Claudio Lopes. Como bem escreve Miguel Angel Vicente, do jornal Clarin, de Buenos Aires: ‘‘A derrota foi justa porque a Argentina não teve idéias pra mudar o rumo da partida. Bem que a equipe foi frontal e ambiciosa, mas se perdeu muito mais pela confusão que pela imaginação.’’
Na verdade, a Argentina não perdeu grande coisa, a não ser a invencibilidade; e todos sabemos que invencibilidade não significa infalibilidade. Ao contrário, trata-se de uma circunstância que, às vezes, transforma-se em pressão. É sonho com sinais de pesadelo.
Já a seleção do Brasil deve saudar a vitória como um momento de recomeço. Os sinais vitais podem prenunciar dias mais promissores. Principalmente, se Vampeta mantiver o alto nível de rendimento. Ele que andava carregando a bola além da conta, dessa vez, praticou o corretíssimo ‘‘toma cá, dá lᒒ, que caracteriza o verdadeiro armador de jogadas.
E mais ainda: se Wanderley Luxemburgo efetivar Alex e Ronaldinho, que são o toque brasileiríssimo de uma equipe que ainda busca uma identidade perdida em tantas viravoltas por que tem passado o trabalho de Luxemburgo na seleção.
RÁPIDAS E RASTEIRAS
- Ronaldo, o verdadeiro, está decidido a passar uma temporada nos Estados Unidos. Não é turismo, é dever de casa: ele quer aprender inglês, língua que gostaria de falar, fluentemente. Ele já traça o italiano, o espanhol e diz que arranha o holandês.
- Edmundo no Botafogo. Positivamente, Montenegro está procurando sarnas pra se coçar.
- Luxemburgo, certamente apoiado por Suzi Fleury, estampou nas paredes do vestiário brasileiro a foto de um cartaz argentino em que Pelé aparece lustrando as chuteiras de Maradona. É psicologia de varejo, mas que funciona, funciona. A equipe entrou no Morumbi resfolegando, acossando, fustigando, atacando, investida de todos os gerúndios que transfiguram, pra melhor, uma equipe de futebol.
- Estrangeiros da Argentina, estrangeiros do Brasil, mas, no fim da história, quem empolgou, mesmo, foram os domésticos Alex, Ronaldinho e Vampeta.
- Uma coisa deve ser ressaltada na partida Brasil x Argentina: foi o padrão ético das duas equipes. Rivais da pele aos ossos, os dois maiores ícones do futebol sul-americano portaram-se com notável correção. Sejamos justos com a nova geração: no passado, não era assim. Argentinos e brasileiros se entredevoravam em campo, como se encenassem no esporte uma guerra de verdade pronta a estourar entre os dois países.

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