Infelizmente, não alcancei o esplendor de Domingos da Guia. No ano em que chegava eu ao Rio, 1944, Domingos se transferia pra São Paulo, contratado ao Flamengo pelo Corinthians. Vi-o, já no crepúsculo, jogando no Bangu. Era uma partida do Campeonato Carioca entre Fluminense e Bangu, no estadinho do Botafogo.
Fiquei impressionado com a majestade do craque. Já não tinha o viço e o fulgor dos jovens. Mantinha, contudo, o estilo clássico que o consagrou como o ‘‘Divino Mestre’’. Diz a história do futebol que ele foi o primeiro defensor a sair da grande área, com a bola dominada, fintando e driblando com leveza de bailarino. Deve ser uma dádiva passar a vida inteira na grande área, defendendo, sem jamais isolar a bola num deslavado bumba-meu-boi.
Relembro o testemunho ilustre de Geninho, craque mineiro dos anos 40, que me contava maravilhas de Domingos da Guia contra quem jogou muitas vezes, ele, no Botafogo e Da Guia, no Flamengo.
Geninho, que era muito observador, revelou-me o que lhe parecia ser o grande segredo de Domingos: ‘‘O Domingos – me dizia Geninho – tinha um senso de antecipação simplesmente fantástico. Não saltava muito, mas não perdia uma só cabeçada, por uma simples razão: ele como que pressentia e saltava um segundo antes do adversário. Primeiro, Da Guia ‘‘hipnotizava’’ o atacante e, depois, roubava-lhe a bola, numa fração de segundos.’’ Em uma palavra: Domingos era o grão-senhor do tempo: o tempo da bola, o tempo do atacante e o dele próprio. Do tempo e do espaço, em cuja parceria Domingos entrava, solenemente, com a arte do movimento.
Dotado de rara acuidade, Da Guia nunca se precipitava no confronto com qualquer rival. Tantas virtudes acabariam inspirando o escritor uruguaio Eduardo Galeano o belo texto que, devidamente autorizado pelo autor, aqui transcrevo, numa singela homenagem ao imortal Da Guia:
‘‘A leste, a Muralha da China. A oeste, Domingos da Guia. Nunca houve zagueiro mais sólido na história do futebol. Domingos foi campeão em quatro cidades – Rio de Janeiro, São Paulo, Montevidéu, Buenos Aires – e foi adorado pelas quatro: quando jogava, os estádios enchiam.
Antes, os zagueiros se agarravam aos atacantes feito selos em envelope, e livravam-se da bola como se ela lhes queimasse os pés, chutando-a o quanto antes para o alto. Domingos, ao contrário, deixava passar o adversário, investida vã, enquanto lhe roubava a bola, e depois tomava todo tempo do mundo para tirar a pelota da zona de perigo. Homem de estilo imperturbável, fazia tudo assobiando e olhando para outro lado. Desprezava a velocidade. Jogava em câmara lenta, mestre do suspense, amante da lentidão: chamou-se domingada a arte de sair da área com toda a calma, como ele fazia, soltando a bola sem correr e sem querer, porque tinha pena de ficar sem ela.’’

RÁPIDAS E RASTEIRAS

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