Vasco da Gama e Palmeiras têm, hoje, mais uma parada gigantesca pela Taça Libertadores, competição que passou a ser, nos últimos anos, a grande ambição dos maiorais do futebol brasileiro. O Vasco é um que só pensa nela, há dois anos. Por ela, jogou uma partida épica, semana passada, no Parque Antártica. Por ela, dará o coração, de novo, em São Januário. Por ela, acabou levando a pior contra o Flamengo, na Taça Guanabara.
As duas equipes chegam à decisão de hoje sensivelmente alcançadas por duas batalhas exaustivas: o Palmeiras, saindo de um quatro-a-quatro simplesmente espetacular com o São Paulo; o Vasco da Gama, consumido por um Flamengo irresistível, campeão incontestável da Taça Guanabara.
Esperar o que, do jogo de hoje, em São Januário? A meu ver, muita coisa, menos um espetáculo tão fabuloso quanto foi a partida um-a-um, no Parque Antártica. Vasco e Palmeiras só podem estar abalados, mentalmente. Queiram ou não queiram os doutores do futebol, jogar bem ou jogar mal será sempre reflexo do estado mental em que se encontre uma equipe. Não só de pernas vive um grande time.
O Vasco da Gama acaba de receber uma dura lição. Depois de se consumir mentalmente, em São Paulo, pegou um Flamengo de cabeça fresca, de alma leve. Deu no que deu: em 15 minutos, Romário e companhia já tinham desbravado o tal caminho das pedras, fazendo dois gols fulminantes em um adversário absolutamente inseguro, perplexo.
Enquanto, no Rio, o Vasco da Gama penava diante de um Flamengo arrebatador, no Morumbi o Palmeiras engrandecia o clássico com o São Paulo, valendo-se, sobretudo, de medida inteligente do técnico Scolari. Que fez ele? Certo de que seu time tinha se esfalfado, emocionalmente, contra o Vasco da Gama, tratou de escalar contra o São Paulo quatro ou cinco jogadores do banco de luxo que compõe a reserva do Palmeiras. Refrescou corações e mentes de sua equipe.
Se acreditasse na força da mente como fundamento essencial do esporte, o técnico Antônio Lopes poderia ter feito a mesma coisa, domingo, contra o Flamengo. Craque é o que não falta no banco de suplentes do Vasco da Gama. Lopes não ousou. Cometeu um erro estratégico.
Ninguém tem dúvida de que, sob o plano técnico, o time do Vasco da Gama é melhor que o do Flamengo. Qualquer rubro-negro, por mais ouriçado que seja, há de se render a essa verdade. Acontece que, mentalmente, o time do Flamengo deu um banho de alta performance no do Vasco da Gama.
Quem não conhece a velha máxima que diz que ‘‘futebol não tem lógica?’’ Nada mais falacioso. Futebol tem lógica, sim senhor. No clássico carioca prevaleceu claramente a lógica: venceu o melhor. Se não o melhor time, certamente, o que melhor se portou em campo. O time do Flamengo deu uma soberba demonstração de força mental. A boa performance de uma equipe ou de um atleta nascerá, sempre, de um bom estado mental. Da capacidade de se manter concentrado, do primeiro ao derradeiro minuto da partida. Pois foi exatamente assim que se viu o Flamengo, domingo.
No futebol, não basta ser o mais bem dotado, tecnicamente. É indispensável que o time esteja psicologicamente no ponto ideal. O ditado ‘‘querer é poder’’ exprime, fielmente, a excepcional importância que tem a mente entre os fatores que levam ao sucesso, no esporte como na vida.
O Flamengo derrotou o Vasco, domingo, não com as armas do coração, como costuma dizer a voz do povo. O coração rubro-negro estava lá, sim, mas na arquibancada animando os jogadores. No campo mesmo, o que se via era a afirmação de uma equipe mentalmente bem mais consistente, bem mais mobilizada, de corpo e alma. Tão lúcida, a ponto de ter conseguido ir além de suas notórias insuficiências técnicas. Já o Vasco da Gama, a meus olhos, parecia um fantasma, um espectro de si mesmo. Bem que o corpo queria a luta, mas a mente não estava à altura dos músculos. E quando o estado mental fraqueja, os outros fatores esmorecem, entram em pane.
Em que estado mental estarão Vasco da Gama e Palmeiras, hoje, em mais uma partida decisiva de suas respeitáveis trajetórias? É o que veremos.
Torcedor é pau-puro
Na era da Internet, cresce, a cada dia, o diálogo do torcedor com o cronista. A tecnologia nos aproxima. E haja mensagem! Uma parte, talvez a maior, me traz opiniões ponderadas. Outra parte é pau-puro. Num e-mail, sou um vascaíno enrustido; no outro, me acusam de detestar o mesmo Vasco. Há quem me atribua desprezo pelo que acontece no futebol do Sul, de Minas e do Nordeste. Como se eu fosse onipresente. Como se a televisão vivesse mostrando a quem mora no Rio outros campeonatos além do carioca e do paulista. Que poderei eu escrever sobre o Juventude se não tenho como ver o campeonato gaúcho?
Há dias, registrei o êxito da Parmalat, depois que a empresa decidiu entrar no ‘‘marketing’’ esportivo. Fiz a nota sob inspiração de interessante reportagem na Gazeta Mercantil. Pois no dia seguinte, eis que desabam do meu computador alguns e-mails insinuando que tenho o rabo preso na Parmalat. Ai de mim, nem beber leite eu bebo.
Um rubro-negro ensandecido me manda dobrar a língua porque mencionei a camisa do Flamengo. Exige que só escreva ‘‘Manto Sagrado’’. É um tal de me xingar até a última geração dos Nogueiras.
Ainda bem que descobri, não é de hoje, que o torcedor é um ser que torce e distorce a verdade, até morrer, doa a quem doer...

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