Passados quatro dias, até hoje não me sai do pensamento o jogo Vasco x Palmeiras, 1 a 1, em São Paulo. Há muito tempo que não se via coisa igual, no futebol brasileiro. Noite heróica de duas equipes igualmente possuídas de entusiasmo, de alta técnica, de destemor, de tudo, enfim, que faz desse esporte uma paixão sem fim.
Faz bem o Flamengo em fazer o que fez: Carlinhos mostrou o teipe do Vasco a seus jogadores, certamente tentando descobrir o caminho das pedras pra decisão da Taça Guanabara, hoje, no Maracanã. Cá pra nós, o time do Flamengo deve ter saído do teipe, sabendo que vai encontrar muitas pedras no meio do caminho das pedras.
A primeira, gigantesca, chama-se Carlos Germano. Se o goleiro repetir a exibição de quarta-feira, haja Romário em tarde de gala pra conseguir quebrar a castanha de Carlos Germano. Contra o Palmeiras, ele fez quatro defesas assombrosas. Foram quatro prodígios, um dos quais, usando o punho direito, num gesto de reflexo que lembrou o prodígio de Gordon Banks, numa cabeçada de Pelé, no jogo Brasil, 1 x Inglaterra, 0, no Mundial de 70.
A outra pedra, essa, indigesta, é Felipe. Driblar com a facilidade com que dribla esse rapaz, que eu tenha visto, só um. Aquele. Tal como ele, Felipe é, hoje, o único jogador que deflagra o processo do drible, partindo da velocidade zero. Ele oferece a bola ao adversário: toma aí, é tua. Pois sim! Quando o outro esboça o primeiro passo, Felipe dá um toque na bola - e adeus! Lá se vai Felipe, vertiginoso, até que o derrubem ou que ele dê um passe inteligente.
No jogo com o Palmeiras, o Vasco da Gama demonstrou um espírito de luta que não estava nos cálculos de ninguém. Até então, o time vascaíno não vinha sendo a sombra de si mesmo. Jogava o campeonato carioca sem um pingo de fervor. Sem vibração. De repente, o time encrespa-se todo, range os dentes e confere ao jogo uma dimensão heróica.
Foi simplesmente empolgante a valentia técnica moral do time do Vasco, dividindo com o Palmeiras uma noite em que o time do Parque Antártica conseguiu ser, também, épico.
É de esperar que, tendo visto o teipe, o time do Flamengo entre em campo, hoje, movido pelo mesmo sentimento de epopéia que enxarcou de suor a noite em que Vasco e Palmeiras nos ofereceram hora e meia de futebol de sonhos.
A aura de Romário
Time por time, o do Vasco é melhor que o do Flamengo. Tem valores individuais como poucos, no mundo. Contar - e contar há tanto tempo - com craques da estirpe de Germano, Mauro Galvão, Felipe, Juninho, Ramon, é um privilégio. O elenco do Flamengo é bem mais modesto, no plano técnico. Em compensação, o Flamengo dispõe de um trunfo que é só dele e de mais ninguém: Romário. É dele que emana a confiança, arma poderosa da equipe rubronegra. Sem contar, naturalmente, a mística de uma camisa talhada pela glória pra vestir heróis.
Quem ganha o super-clássico de logo mais, no Maracanã? Respondo com outra pergunta: quem sou pra meter a mão nessa cumbuca?
Rápidas e rasteiras
- Está chegando ao Brasil, pra Bienal do Livro do Rio, o escritor americano Mitch Albom. Mitch é cronista esportivo nos Estados Unidos. Já publicou quatro livros, coletâneas de suas crônicas publicadas em uma cadeia de jornais. O livro que o traz ao Brasil é ‘‘A Úlitma Grande Lição - O Sentido da Vida’’, que ele vai autografar na Bienal.
- Contando, ninguém acredita: Ana Moser, Leila, Vera Mossa, Denise, Karin Negrão, estrelíssimas do vôlei, estão todas desempregadas. Suas equipes, simplesmente, se acabaram. Viraram fumaça. Até quando a Confederação Brasileira de vôlei vai suportar, eternamente, um regime tão cruel em que um esporte da têmpera do vôlei viva dos humores mercadológicos das Nestlés da vida?
- O presidente Farah, da Federação Paulista, estrebucha, feio, reclamando da superposição de datas no calendário da CBF. Tem razão o Farah. Mas não adianta chiar. A CBF conta com o apoio dos clubes para os quais quanto mais taças, melhor. É mais dinheiro. Os jogadores, por sua vez, não se protegem, nem têm quem os proteja. Omissa, a classe não se dá conta de que a cobiça dos cartolas está encurtando sua vida profissional.
- Gustavo Borges abre os braços, e me fala, com orgulho, de sua envergadura: são dois metros e trinta centímetros, de ponta a ponta dos dois dedos médios. A envergadura do rapaz é dois centímetros maior que a do nadador alemão Michael Gross, medalha de ouro dos 200 metros, estilo livre, em Los Angeles-84. Pelo tamanho da envergadura, Michael Gross ganhou o apelido de Albatroz.
- Ano passado, escolhi Valdo com o melhor apoiador da temporada. Fico sabendo que o rapaz continua no mesmo tom. Jogando e correndo um colosso no time do Cruzeiro. Valdo vai chegar aos 40 comendo a bola. Que Deus o proteja.
- O jogo da seleção com o Barcelona é festa e nada mais. Por que, então, Luxemburgo não quis prestar uma reverência ao zagueiro Mauro Galvão? Insensibilidade? Mauro Galvão é um portento na área. Se Odvan não aprender agora, não aprende nunca mais.
- Positivamente, o dinheiro ensandeceu o futebol: o Porto F.C. acaba de vender o passe do volante Doriva ao Sampdoria por oito milhões de dólares. Ao fundo, régias comissões.
- Luis Carlos Barreto anuncia: o canal Brasil, da Globosat, pretende apresentar uma série de documentários sobre os grandes ídolos do esporte brasileiro: do futebol, do atletismo, da natação, do vôlei, do basquete, enfim, dos esportes nos quais o Brasil sempre se deu muito bem.

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