Na Grande Área - Armando Nogueira
O Guga dos meus sonhos
A vitória brasileira na Taça Davis, contra a Espanha, foi, mais que tudo, uma vitória de Guga sobre ele mesmo. Pela primeira vez, viu-se o brilhante tenista juntar, em perfeito equilíbrio, virtudes técnicas e virtudes mentais. Por isso, considero que o Guga de Lérida, no fim-de-semana, chega a superar o Guga de Roland Garros-97. Se em Paris, há dois anos, ele venceu jogando um tênis basicamente instintivo, dessa vez Guga adicionou à intuição uma dose respeitável de reflexão. Talento e maturidade.
Pra não parecer que estou querendo teorizar, serei bem pão-pão, queijo-queijo: até aqui, não me lembro de ter visto Guga tão sereno em quadra. Tão descontraído. Ao serviço, pedia três bolas ao gandulinha, comparava as três, detidamente, devolvia uma e se armava pra sacar. Antes, fitava o rival com um olhar altivo. Confiante. Zero de sofreguidão, tal como recomendam todos os livros já escritos sobre a arte de jogar tênis, desde o lendário Tielden, autor da primeira bíblia do tênis.
Contra Corretja ou contra Moya, Guga foi sempre o mesmo jogador: descontraído tecnicamente e contido, taticamente. Contido, porém lúcido, calculista. Em vez de tentar liquidar o ponto no primeiro golpe, como era do seu feitio, limitava-se a trocar bolas, dando ao rival a chance de errar primeiro que ele. Na quinta ou sexta bola, depois de fazer o adversário correr pros dois lados, como limpa-parabrisas (a feliz imagem é de Dácio Campos), aí, sim, Guga acelerava o golpe, fosse de direita ou de esquerda. Infalivelmente, saía uma bola vencedora. De deixar estatelados os dois touros catalães. Um de cada vez, naturalmente.
Guga é um tenista fora-de-série. Em dia de luz, no circuito de saibro, ninguém lhe chega aos pés, em potência e esplendor. Nos golpes, cruzados ou paralelos, a bola trisca a linha, inalcançável. O repertório dele é rico de precisão e contundência. Foi assim que Guga conseguiu aplacar uma platéia fervorosa que o viu repetir, na quadra de tênis, um pouco do que a alma espanhola costuma ver na arena: depois de fustigar o touro, com sucessivos pases e verônicas, Guga desferia a estocada fulminante.
O Guga de Lérida é o tenista dos meus sonhos: frieza, premeditação, ciência na troca de bolas; destemor, intuição, arte pura na consumação do ponto.
E ponto final.
Mais um título...
Cansado de conviver com minhas imperfeições físicas, decidi fazer uma avaliação corporal. Consultei o professor de educação física Frederico Laatsch. Ao fim da avaliação, fico sabendo coisas desalentadoras sobre o meu perfil biométrico. Trago do berço e da poeira dos tempos, pequenas distorções anatômicas, tipo: joelho geno-varo, pé, idem; coluna envergada, tanto a toráxica, à esquerda, quanto a lombar, à direita. Clara hipercifose dorsal. Os ombros, dos quais nunca me orgulhei, por tê-los derreados, acusam antepulsão, imperfeição a que se segue, coluna abaixo, uma anteroversão do quadril. A qual, de saída, me deixou cabreiro; depois, descobri que não chega a comprometer a masculinidade da silhueta.
O exame conclui me enquadrando, segundo o critério Heath-Carter, numa categoria tão estrambólica que não resisti e já mandei acrescentar mais um título ao meu cartão de visita: Armando Nogueira, marquês de Xapuri, Mesoformo Endofórmico.
Rápidas e rasteiras
- Se o amigo leitor tem visto a reta final do vôlei, tanto masculino como feminino; se tem visto, também, a batida do basquete, tanto masculino como feminino, considere-se uma criatura feliz. Tem havido jogos empolgantes, do mais puro requinte técnico, do mais alto teor de emoção.
- Falando em basquete, como é bom ver a simplicidade com que Oscar Schmidt convive com a glória esportiva. Os dois nasceram um para o outro. Ao chegar a 42 mil pontos, no jogo do Mackenzie contra o Pinheiros, Oscar recebeu abraços, taças, flâmulas. Ele repartiu com sua mulher todos os confetes da celebração.
- O apelido pit bull, que a mídia está dando a Romário, pode ter a melhor das intenções, mas não faz justiça ao estilo do craque. Romário é a placidez em pessoa, antes, durante e depois de fazer um gol. Estou com Caetano Veloso: o apelido não tem nada a ver.
- Esta semana, o time do Palmeiras joga três vezes, disputando três taças distintas. Duas perguntinhas: faz sentido cobrar do jogador rendimento normal? Onde está o sindicato da classe que não dá um pio em defesa de seus jogadores, sugados até a medula?
- A mídia que me desculpe, mas o time do Flamengo não joga a metade do que se lê, se ouve e se vê. Se a equipe rubro-negra fizer uma autocrítica, pra valer, restarão, incólumes, Romário e o goleiro Clemer.
- Honras a Carlos Alberto Parreira, que consegue tirar minhoca de asfalto com a equipe do Fluminense. Parreira e, naturalmente, sua comissão técnica, com o natural destaque do preparador físico Moracy Santana.
- Falei acima da maratona do Palmeiras. O Corinthians não lhe fica atrás. Seus jogadores estão esmulambados de tanto jogar. Como diria o poeta Bandeira: os cavalinhos correndo e os cavalões enchendo a burra de dinheiro.
- O Barcelona vai pagar um milhão de dólares pelo jogo da seleção brasileira, dia 28 próximo. Que eu saiba, jamais a CBF conseguiu cachê tão alto. A Nike vende bem seu produto. Esse jogo pertence ao pacote da poderosa grife.





