Você é jornalista esportivo. O torcedor o reconhece e vai logo fazendo uma pergunta sobre futebol. Naturalmente, você responde; e responde, assumindo um certo ar imperial, tão comum entre nós, cronistas. Não é mais ou menos assim que acontece, quando ocorre uma situação desse gênero?
Pelo menos, comigo, no começo da carreira, era por aí. No que o amigo fazia a pergunta, eu desandava a falar pelos cotovelos. Até que um dia, percebi que os papéis estavam trocados. Resolvi então, mudar de atitude. Em vez de deitar falação, passei a devolver a pergunta: E você, o que é que você acha? E não é que me dei bem - bem até demais? Por uma razão muito simples: a pergunta é feita com o único pretexto de facilitar a abordagem.
O distinto não está querendo me ouvir, coisa nenhuma. Ele já conhece, de cor e salteado, todas as minhas opiniões, tantas vezes lidas no jornal, tantas vezes ouvidas no rádio e na televisão. O que ele pretende, no duro, é me apresentar às idéias dele. Quem sabe ele não conquista a adesão do cronista às teorias que sustenta, com fervor, no boteco ou no ponto de táxis?
Esta semana, peguei um táxi. O motorista me reconheceu: ‘‘O senhor não é o Armando Nogueira, da tevê?’ Senti, de cara, que a viagem poderia ser agradável. Sentei no banco da frente, exatamente pra facilitar as coisas. Não deu outra: o carro ainda parado e já pinta a primeira pergunta: o que é que o senhor acha do carrinho? Imediatamente, adoto a tática infalível: E você, o que é que você acha? E silenciei.
Paulo, bom de volante e muito bom de bico, pegou a bola e foi em frente. De cara, saiu em defesa do ‘‘carrinho’’. Depois, passou a desancar os técnicos brasileiros. Como se explica, pergunta, que nenhum deles, nem mesmo o Luxemburgo, tenha conseguido formar um lateral direito digno da seleção? Há anos, diz ele, a gente é obrigado a suportar o Cafu: ‘‘Eu não aguento mais o Cafu: ele centra dez bolas e erra nove!’ Ah, quem viu o Djalma Santos, o Carlos Alberto, o Leandro! E haja fôlego. Agora, o homem desce a lenha porque o Narciso recusou-se a jogar de zagueiro no Flamengo. Emenda, censurando o Viola que há dias tentara agredir um torcedor, no treino do Santos.
De vez em quando, o bem falante motorista me fazia uma perguntinha, tipo escada: O senhor viu Vasco-e-Santos? Mal respondo que vi, ele já retoma a bola e não larga mais. Queixa-se da crônica esportiva: ‘‘Vocês pegaram tanto no pé do Argel que, agora, ele já está marcado pelos árbitros’’. Reconhece, porém, que o dito Argel não é flor que se cheire. É bem verdade, observa, que parte da culpa vem do Leão. ‘‘O Leão manda mesmo entrar duro. Torço pelo Santos mas tenho que ser franco: ele manda matar a jogada.’
A viagem foi curta, uns 15 minutos, mas deu pro Paulo falar de muita coisa: disse que nós, da imprensa, temos a mania de chamar todo mundo de craque. Que o Marcelinho não é craque, coisa nenhuma; nem o Rincon; nem o Vampeta. Esses caras são apenas bons jogadores. Craque era o Tostão (a quem, lembra, tinha transportado, dias atrás, com muita honra), craque era o Rivelino; craque é o Gamarra.
Paguei a corrida. O chofer, extremamente simpático, me felicitou pelos meus conhecimentos e me agradeceu, com um largo sorriso, pela excelente aula de futebol que eu acabara de lhe dar...
Por nada, ‘‘seu’’ Paulo. Sempre às ordens!
Rápidas e rasteiras
- A arbitragem de Corinthians x Cerro Porte¤o garfou o atacante Fernando Baiano: atribuiu ao lateral Índio o que seria o sexto gol do jovem artilheiro. A bola de Índio foi conscientemente tocada por Baiano meio metro antes da linha de gol. Pra mim, Baiano marcou, de fato, seis e não cinco, contra o Cerro.
- Atualmente, há 150 jogadores estrangeiros na Série A do Campeonato Italiano. Quer dizer: adeus, renovação! Adeus, seleção! Itália, de novo campeã do mundo, só no futebol de ficção. Quem chora tais mágoas é Cesar Maldini, ex-técnico da Azzurra.
- O livro-álbum ‘‘Futebol-Arte’’, em vias de lançamento, será tema da estréia do novo programa que vou apresentar, em parceria com Renata Cordeiro. Será dia 26 deste mês. Como sempre, no Sportv, o canal campeão.
- Gente de montão, como diz a galera, me escreve, concordando com a coluna em que deploro o beijo na camisa, encenação barata com que alguns jogadores celebram seus gols.
- O leitor Hygino Vieira me pede, simplesmente, o impossível: quer que eu escreva uma crônica ao estilo de Nelson Rodrigues, caso o seu Fluminense derrote o Vasco da Gama, no estadual. Amigo, Nelson Rodrigues é um talento inimitável. Só se baixasse em mim um santo, daqueles de arrepiar terreiros.
- Alberto Helena, amigo de fé, camarada, deixa a Folha e passa a escrever no Diário Popular, de São Paulo. Esse é um dos nossos: sempre amou o futebol de todas as boas rimas - técnico, ético, estético, poético.
- Ainda Djalma Santos: recebo notícias de que a Prefeitura de Uberlândia celebrou, com bolo de vela e discurso, os 70 anos do inesquecível bicampeão do mundo.
- O Flamengo quer multar Romário. O craque sumiu do mapa em dia de treino, sem dar satisfação a ninguém. Como o clube deve a Romário cinco milhões de dólares e parece não ter como pagar, clube e jogador poderiam perfeitamente fazer um acerto: matou o treino, multa de 500 reais. Feita a conta, Romário vai poder matar 18 mil treinos. Pra quem odeia treinar...

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