NA GRANDE ÁREA - Alma e coração
Rubem Braga tem uma crônica que fala das boas coisas da vida. Pra variar, uma delícia. Não sei porque ele não incluiu uma final de campeonato; logo o Rubem, que gostava tanto de futebol. A partida Santos x Corinthians é um desses doces momentos que fazem mais feliz a vida da gente.
Sou, modéstia à parte, testemunha de tantas e tantas decisões de título que até posso jurar: é num jogo assim que nascem os verdadeiros heróis do futebol. É numa final de futebol, como a de hoje, que o homem mostra o tamanho de sua alma. Daí, amigos, a pergunta: que seria do futebol sem as surtidas do coração? Que me perdoem os trezentos e tantos músculos do corpo humano, mas numa final, a primeira e a última palavra é do coração, o músculo olímpico que rege a sorte dos finalistas. Não é à tôa que o tratamos como símbolo. O coração é uma das melhores invenções da mitologia, um simples músculo convertido em catedral.
Os acadêmicos pesam, pensam, medem, somam, subtraem, mergulhados na artimética dos times em confronto: o Santos é isso, o Corinthians é aquilo, o Santos intui, o Corinthians reflete, o Santos é vertical, o Corinthians, horizontal. Três-quatro-três, quatro-três-três, noves fora... nada vezes nada. E sabes tu porque, amigo?: final é mais que uma bola a rolar, é mais que corpos a transpirar pelo campo. Final é transbordamento. Final é transcendência.
É a alma que plasma o campeão.
Volante exemplar
Num campeonato tão rico de revelações, a coisa mais fácil pra qualquer um de nós é eleger o jogador símbolo da temporada de 2002. Atacantes aos montes. Ou, por que não um goleiro, entre tantos que fecharam o gol, em tardes e noites memoráveis? Pois amigos, do alto da minha prosopopéia, eu vos digo que o jogador do ano, pra mim, é o volante Renato, do Santos.
Depois de mais de uma década de mediocridade dos cabeças-de-área; depois de tantos anos, tendo que suportar o futebol obtuso, a absoluta falta de classe dos médios de prancheta, eis que podemos, enfim, distinguir alguém que tem sabido honrar a tradição dos grandes apoiadores brasileiros. Renato provou, com sobras, que é possível combater sem ter que bater; que é possível desarmar sem demolir o adversário. O volante santista jogou 29 partidas sem cometer uma só falta desclassificante. Sem tomar cartão amarelo uma única vez.
Como é bonito ver um volante saber passar uma bola, olimpicamente roubada ao rival.
Renato faz em 2002 o que já tinha feito, em 2001, o então atleticano mineiro Gilberto Silva, eleito, na época, o melhor volante do Brasil. Gilberto acabaria titular da seleção e campeão do mundo. Bom que seu exemplo tenha frutificado. Renato é a mais grata inspiração de Gilberto Silva.
Que Deus o conserve assim, pro bem do futebol brasileiro.
A frase do futebol 2002
O árbitro chileno Carlos Chandia apitava a partida entre Universidad Católica e Universidad do Chile. É o jogo mais tradicional do futebol chileno. Pelas tantas, a figura marca pênalti contra o Universidad Católica. Indiscutível. Bola na marca. O árbitro encosta no goleiro Alvarez e dá uma dica: ''Mergulha pro lado esquerdo que é lá que ele vai chutar.'' Não deu outra. Chandia, claro, entrou pelo cano, mas é dele, sem dúvida, a frase do ano.
Rápidas e rasteiras
Saiu no jornal que nada menos de 600 espécies da fauna brasileira estão em vias de extinção. Uma delas, iminente, é, segundo uma bem humorada provocação corintiana, uma espécie marinha que vive no Litoral paulista. Mais precisamente, na praia de Santos. O nome popular da raça ameaçada é peixe-da-vila... / / / / / Do Caixa D'água, tentando o novo presidente do Botafogo: ''Se o Bebeto me der um sinal, eu viro a mesa. Essa conversa de ética é frescura.'' Pois é precisamente essa figura que está me processando por danos morais. Cale-te boca! / / / / / Perguntei ao Tostão: Diego ou Robinho? Resposta, de primeira: Diego. A opinião de mestre Tostão bate com dezenas de mensagens de leitores. Todos falam muito bem de Robinho, mas preferem Diego.





