Tenho dezenas de amigos que torcem pelo Fluminense. Nenhum, que eu saiba, bateu as botas, no jogo de quarta-feira. Mas meia-dúzia deles, bem que passou raspando. O Mesquita, por exemplo, só não morreu de infarto porque passou o jogo todo, caladinho, sublinguando um Isordil, que lhe dei, em nome da precaução. Ele assistiu ao jogo comigo, pela tevê. De vida, o Mesquita tem 56 anos; de Fluminense, pelo menos, naquela noite, devia ter o tempo de uma sinistra eternidade.
O jogo do Fluminense contra o São Caetano, quarta-feira, não durou hora e meia, coisa nenhuma. Aquilo foi provação de uma vida inteira. O time do Fluminense fazia das tripas coração, diante de um cerco realmente sufocante. Só dava São Caetano. Eu olhava pro Mesquita, o Mesquita, lívido, tremia feito vara verde. Na hora do segundo gol do São Caetano, ele não quis nem ver. Me pediu, por favor, que mudasse de canal. Ele há de ter pensado que só o atendi pra honrar minha condição de anfitrião. Nunca, jamais. O que eu não queria era contrariar meu amigo no que poderia ter sido sua última vontade, neste vale de lágrimas.
A verdade é que o futebol desgoverna o coração do homem. É pior que desamor de mulher bonita. Não conheço paixão mais desnaturada. Em certos momentos, pensei: às vezes, é melhor amar sem ser amado. Ou, quem sabe, estar relegado ao sereno da Segunda Divisão...
Findo o jogo, apertei a mão do Mesquita, com duas intenções, uma mais que óbvia e a outra, inconfessável: primeiro, pra felicitá-lo pela classificação e, segundo, por ter ele sobrevivido a tão dura purgação. Mesquita, então, já era outra pessoa. Ou melhor, voltara a ser uma pessoa, coisa que não conseguira ser, hora e meia, enterrado na poltrona, triste fantasma de si próprio. De vívido, logo passaria a eufórico, pra arrematar, na despedida, ao mesmo tempo tórrido e triunfal:
- Domingo, estarei aqui, de novo!
- Infelizmente, - respondi - domingo, tenho que fazer o Troca de Passe, no Sportv. É ao vivo e não poderei estar contigo. Mas, pode vir, amigo, que a casa é sua. Você encontrará, na mesinha em frente à tevê, o Isordil e o telefone do Pronto Socorro.
Que Deus te proteja, velho Mesquita, assim na terra como no céu...
O desfile da Vila...
O São Paulo atravessou o campeonato inteiro, 25 partidas, jogando o melhor futebol, o mais bonito, o mais efetivo. Chegou às quartas, absoluto, com 52 pontos ganhos, com um saldo de 22 gols. Hoje, está tão distante do título como tantos que capitularam no meio do caminho. Foi eliminado, sem apelação.
Não se diga que agora é cinza e nada mais. O time do São Paulo fraquejou, sim, mas, nem por isso, vai-se negar que seu time encheu de brilho o campeonato. O tombo, no Morumbi, não chegou a ser uma surpresa contundente. Dias antes, o Santos já tinha mostrado a que vinha. Jogou primorosamente as duas partidas. Foi irresistível, na Vila como no Morumbi.
Rápidas e rasteiras
Duríssima a vitória do Grêmio, em Caxias do Sul. O time do Juventude não se rendeu, um minuto sequer, ao ímpeto do Grêmio. Volta e meia, zapeando, andei vendo o jogo. Não se trata de enterro de primeira classe, não, é pura verdade: o Juventude é um dos mais harmiosos conjuntos do futebol brasileiro. / / / / / O árbitro ''skin-head'' Héber Lopes não podia ter deixado em campo o jogador Paulão, do Juventude, que chutou, torpermente, a cabeça do gremista Claudiomiro numa ''dividida''. Punir uma agressão daquela com cartão amarelo é inaceitável. Paulão devia ter sido expulso, no ato. E se a Justiça Esportiva fosse mais rigorosa, Paulão tinha que ser suspenso, no mínimo, por um mês. Presidente Zveiter, veja o teipe do lance. O senhor conhece, melhor que ninguém, a jurisprudência, segundo o qual o teipe tem valor testemunhal quando se trata de questão disciplinar.

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