Sábado, um dia ensolarado, temperatura agradável. O torcedor coloca a camisa alviceleste, toma um rabo-de-galo para aquecer a garganta, sintoniza o rádio na emissora preferida, ajeita a caixa de isopor com as loiras geladas bem próximo da mão. A patroa, percebendo o clima em casa, vai logo dizendo:
– Benhêêê, vamos ao shopping...
– Ô amorêê, hoje tem jogo do Tubarão... – Você vai me trocar por um jogo de futebol, e no radinho?
– Mas amor, é o Tubarão...
  Blam!!!! explode a porta...
  Tudo perfeito. Ou, quase tudo.
  Antes de entrar em campo os jogadores dão entrevistas entusiasmadas, demonstrando confiança.
  A bola começa a rolar em campo, o torcedor dá uma beiçada na cerveja. Dez minutos de jogo, 1 a 0 para o adversário.
- Calma, está tudo sob controle... O nosso time é de pegada, vai virar o jogo...
  Dez minutos depois, 2 a 0 para o adversário.
  - Ops! Acho que ainda dá, o time vai reagir... - mais uma talagada de cerveja.
  Pênalti. Bola na rede, 2 a 1 para o adversário.
  - Eu não disse? Agora vai... - outra garrafa para o engradado.
  Intervalo de jogo, hora de conferir a opinião dos comentaristas, de abrir mais uma garrafa, hora de ir ao banheiro tirar as últimas garrafas...
  Começa o segundo tempo. 3 a 1. Mais uma garrafa. 4 a 1. Mais uma garrafa. 5 a 1. Mais uma garrafa...
  - Só pode se praga da minha mulher...
  6 a 1.
  - Só pode ser praga de todas as mulheres... - mais um rabo-de-galo para rebater.
   7 a 1.
  - Zuzu bem, assumo que estou bêbado... nenhum time pode perder de 7 a 1. Será que sou eu que estou bêbado ou são eles todos, jogadores e comissão técnica é que estão? Nem é primeiro de abril! Chega de rabo-de-galo, vou tomar o galo inteiro. Isso não está acontecendo, é só efeito do sangue no meu álcool.
  O Ministério do Esporte adverte: torcer para time que perde por 7 a 1, associado ao sangue no álcool, faz mal para a saúde mental do cidadão comum. Ou o cara pára de beber ou muda de time. Fazer as duas coisas ao mesmo tempo é quase um suicídio.
  Mas que foi praga de mulher, ah, isso foi.
O técnico Roberto Fernandes caiu como tangerina madura. Ninguém aguenta um vendaval desse. Foi embora rapidinho. Não quis dar entrevistas aos repórteres setoristas do clube. Não houve lenços brancos balançando no ar em sua despedida.
Mauro Fernandes, com um currículo mais respeitável que seu antecessor, chega para pôr ordem na casa do Londrina. Hoje, contra o Gama, o primeiro teste para saber o que sobrou da casinha destruída pelo Paulista.
Apesar da postura arrogante do técnico que se despediu, ele não foi o único culpado pelo massacre. Houve, digamos, uma certa desatenção dos atletas. É bom que os atletas saibam que, ao contrário do que se diz, dois raios podem sim cair no mesmo lugar.

Cláudio Osti - [email protected]

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