Adroaldo para técnico do São Paulo.


O técnico Tite queria, segundo as agências de notícias, R$ 150 mil mensais para dirigir o São Paulo. Não, você não leu errado. Tite pediu R$ 150 mil. O equivalente ao preço de 75 mil garrafas de cerveja ou 300 mil doses da água que passarinho não bebe.
A diretoria do Tricolor teria oferecido R$ 120 mil e ele não aceitou.
Adroaldo Antero Arquibaldo ficou sabendo da negociação entre o técnico e o clube pelo rádio e resolveu que estava na hora de mudar de profissão. Mais uma vez. A lista de profissões que ele tentara em sua vida era grande. Tinha sido auxiliar de servente de camelô; coreógrafo de vira-lata interpretando estátua em cenário para show de pulgas em circo de periferia; condutor de vacas para o brejo.
Depois de ouvir a notícia da negociação teve certeza, sua hora chegara. Currículo tinha. Lembrou de quantas vezes viu o técnico Jacaré gritar com seus comandados no campo da Vila Recreio. Sabia gritar como poucos as palavras mágicas dos treinadores: ''aperta a marcação''; ''vai, vai; vai''; ''pega, pega, pega''; ''p.q.p''...
Precisava se aprimorar em alguns fundamentos como aprender a gritar sem que ninguém o entendesse, para ficar à beira do gramado se esgoelando e chamar a atenção das câmeras de TV para valorizar seu passe; dar entrevistas diárias para as emissoras de rádio, TVs e jornais, iniciando sua fala com o ''veja bem, devemos iniciar aplicando o 4-4-2, variando depois para o 3-5-2 e, dependendo do andamento da partida, usar o tradicional seja o que Deus quiser que se não funcionar não é culpa minha e sim do Criador que não deu inteligência suficiente para os jogadores entenderem minhas instruções''.
Adroaldo estava decidido. Só não sabia se iria querer ser chamado de professor.
- Professor é uma palavra de respeito. Lembro da dona Joaquina de Azevedo, minha professora no primário, alías, minha única professora já que não saí do primário. Tantas noites de sono ela perdeu para ensinar-me a ler e a escrever. Ela quase conseguiu, por isso merece todo o meu respeito, veja bem, analisou Adroaldo.
Depois de avaliar suas possibilidades resolveu: porquê não?
Ligou para dona Joaquina que sempre acreditou nele. Corintiana de paixão, deu o maior incentivo. Preparou o currículo do pupilo, disfarçando sua corintianidade de nascença, e enviou para o diretor do São Paulo, Marcelo Portugal.
Junto com o currículo foram enviados também cartas de apresentação de santistas e palmeirenses, todos recomendando a contratação de Adroaldo.
Já Adroaldo, confiando na lusitanidade de Marcelo Portugal está apenas aguardando o telefonema que poderá mudar sua vida para dizer: ''sim, aceito os R$ 120 mil''.

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