MUNDIAL DE 2014 - Copa no Brasil divide opiniões
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quarta-feira, 04 de outubro de 2006
Sílvio Barsetti<br> Agência Estado 
Rio - A construção de dez estádios modernos e o investimento maciço em transportes, segurança e telecomunicações separam a pretensão da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) de trazer para o País a Copa do Mundo de 2014. No rastro do encontro da semana passada, em Brasília, entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva, o da Fifa, Joseph Blatter, e o da CBF, Ricardo Teixeira, a Agência Estado ouviu sociólogos, economistas e esportistas sobre a viabilidade da realização de um novo Mundial no Brasil - o primeiro foi em 1950.
O tema é polêmico e não existe consenso. Há quem defenda, por exemplo, a divisão da Copa entre Brasil e Argentina, reeditando assim a parceria de Coréia do Sul e Japão em 2002. ''Um Mundial compartilhado reduziria os altos custos. Juntos, os dois países poderiam aproveitar o evento para ampliar no campo social a integração iniciada na área econômica, com a criação do Mercosul'', diz o sociólogo Marco Fonseca, radicado nos Estados Unidos e autor de um estudo sobre o impacto da Copa de 1994 naquele país.
''As cidades norte-americanas que receberam os jogos acumularam perdas de cinco a nove bilhões de dólares, contra cerca de quatro bilhões previstos como receita derivada da Copa'', afirma Fonseca. Segundo ele, uma previsão ''muito preliminar'' dos investimentos no Brasil para ser sede do Mundial giraria em torno de US$ 6 bilhões.
A idéia de ceder metade da festa para os argentinos é rechaçada pela CBF. Teixeira nem admite falar sobre a hipótese. Ele conta com um documento formal de apoio à candidatura do Brasil assinado pelos dirigentes de todas as federações sul-americanas. Nos últimos meses, porém, Colômbia, Chile e a própria Argentina deram sinais de que podem desconsiderar o compromisso.
O ex-craque Sócrates é a favor da Copa de 2014 no Brasil. Isso não significa que acredita no projeto. ''Um Mundial implica em parcerias com empresas sérias e homens respeitados. Mas o futebol brasileiro está entregue aos espertos. Como conseguir captar recursos com as pessoas erradas, sem credibilidade? Eu, como empresário, não investiria''.
Sócrates teme pela falta de transparência na discussão e na execução das obras. ''Muita coisa ia ser desviada.''
Algumas ressalvas também são feitas pelo sociológo Maurício Murad, professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) e da Universidade Salgado Oliveira (Universo). Ele cita a violência e ''a histórica lentidão institucional do País, a burocracia e a corrupção estrutural e crescente nos últimos anos'' como fatores que podem dificultar a realização da Copa de 2014 no Brasil. No entanto, prevê uma mobilização coletiva, motivada pela forte relação cultural do País com o futebol, capaz de atrair os investidores.
Entre prós e contras, o economista André Urani, diretor do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade, torce pelo sucesso do projeto, como catalisador de esforços para o País alcançar metas. ''Vale a pena enxergar e aceitar desafios, mesmo os de longo prazo, e executá-los''. O ideal, conclui ele, seria o Brasil não depender dos calendários de eventos esportivos para melhorar os serviços de infra-estrutura.
Seu colega do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Luiz Martins Mello, atribui à vontade política do governo federal e do Congresso a eficácia da campanha da CBF. Ele aposta no sucateamento do Maracanã e do Morumbi, ''dois coliseus que não caíram'', após a eventual construção de novos estádios no Rio e em São Paulo. E afirma ser viável o Brasil voltar a ser o centro da maior competição de futebol do mundo. ''Temos economia suficiente para financiar 2, 3 ou 4 bilhões de dólares.''


