Defender uma equipe de futebol feminino em um país onde somente agora a modalidade começa a ganhar contornos profissionais não é uma tarefa fácil. Conciliar os jogos, treinos e viagens com o trabalho torna a prática do esporte complicada e exige criatividade e, em alguns casos, sorte da atleta, para que consiga algum acordo com a empresa e possa participar das atividades.
Equipes como o Novo Mundo (que hoje disputa o título do Campeonato Metropolitano contra o Colombo), o Jaborá, São José e outros clubes paranaenses de futebol feminino convivem com esses problemas. Quando enfrentam adversárias de outros estados, como São Paulo e Santa Catarina, onde há maior suporte financeiro, essa diferença se traduz dentro de campo.
Na opinião do técnico Hamilton Rocha, do Novo Mundo, que perdeu a vaga para a terceira fase da Copa do Brasil para o Kindermann, de Caçador (SC), clube cuja equipe toda é contratada e recebe salário, não há planejamento que resista a esses obstáculos.
"Nós realizamos treinos às quartas-feiras (noite), sábado (tarde) e nos reunimos para jogar, mas muitas vezes não podemos contar com todas as atletas e isso dificulta muito, tanto na preparação física como no entrosamento", afirmou o treinador.
Hamilton, porém, reconhece o esforço de todas as atletas. "Não tem como parar de estudar e principalmente trabalhar. O ideal seria receberem um salário pela dedicação ao clube e então teríamos melhores condições de entrar em competições maiores’, disse. O técnico acredita que uma renda mensal de R$ 15 mil aproximadamente poderia bancar um grupo de 20 atletas mais a comissão técnica.
Há duas semanas, o time viajou para Caçador desfalcado de quatro atletas consideradas importantes para o esquema de jogo, e na semana anterior já havia jogado sem três titulares, em Caxias do Sul.
A meia-atacante Cléo fez um acordo com seus empregadores e trocou as faltas por dias que serão descontados de suas férias. "A gente precisa do salário, cumprir os horários, mas ao mesmo tempo foi uma disputa (Copa do Brasil) muito importante. Tenho sorte que em meu trabalho eles entendem isso e consigo conciliar as coisas, mas sempre sentimos quando alguma atleta não consegue participar do treino e de alguma partida", afirmou.
A volante Daiane e a goleira Cíntia "Grilo" trabalham na Copyline, empresa de copiadoras comandada pelo empresário Antônio Portella, fã do futebol feminino. Para ele, que libera as atletas para seus compromissos esportivos, é uma maneira de incentivar o esporte.
"A gente conhece as dificuldades enfrentadas, mas acredito que vale a pena, é uma forma de ajudar. Além disso, tenho algumas despesas com a contratação de substitutas para elas, mas o esforço é recompensado pois gostamos de esportes", declarou.
Na opinião de Daiane, essa relação amistosa é positiva. "Tivemos sorte, pois algumas amigas nossas não conseguem isso. Uma alternativa seria a profissionalização dos clubes, para que pudéssemos ter uma dedicação integral", afirmou.

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