Mulheres em campo: "eu quero, eu posso"
Pré-conceito, discriminação e falta de apoio. Ser mulher e praticar esporte de alto rendimento no Brasil é superar barreiras a cada dia
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segunda-feira, 29 de julho de 2019
Pré-conceito, discriminação e falta de apoio. Ser mulher e praticar esporte de alto rendimento no Brasil é superar barreiras a cada dia
Gustavo Andrade/Especial para a FOLHA 

Reflexo de uma sociedade cada vez menos preocupada com o próximo, a desigualdade de gênero ainda é uma realidade. Dentro do esporte o discurso de igualdade pode até trazer esperança, mas o investimento e a pouca importância dada ainda são barreiras.
Recentemente, a Forbes, revista de negócios e economia, divulgou a lista dos 100 atletas mais bem pagos do mundo. Na 63ª posição, a única mulher. Serena Williams, tenista, recebeu, entre salário, bônus e patrocínios, o equivalente a US$ 29 milhões nos últimos 12 meses. Roger Federer, tenista, 5º atleta da lista, ganhou no mesmo período US$ 93 milhões. Uma diferença de US$ 64 milhões que pouco importa para as mulheres.
Domingo. Aterro do lago Igapó. Temperatura agradável, céu com pouca ou nenhuma nuvem, dia perfeito para praticar esportes. Quadras, campos e espaços parcialmente tomados por homens jogando futebol, vôlei, rugby e futebol americano. Pouco a pouco algumas mulheres começam a aparecer com uniformes e o que se vê são pequenos grupos disputando um espaço que antes era inimaginável.
“Há mais de dez anos decidimos que também queríamos jogar rugby. Começamos com quatro ou cinco meninas que se conheceram vindo assistir aos namorados treinar. É fantástico esse poder de dizer sim. Eu quero, eu posso”, celebra Mariana Sanches, atleta da equipe feminina do Pé Vermelho Rugby.
Apesar do início animador, logo as meninas viram que não seria fácil. Problemas financeiros e dificuldades para encontrar novas adeptas surgiram no caminho. “É muito difícil encontrar outras mulheres para praticar o esporte. Nós as perdemos para o futebol, handebol, vôlei, esportes mais divulgados. Elas acham que podem acabar machucando em razão do contato físico. O rugby é muito relacionado com essa questão da masculinidade por ser um esporte que exige força física”, diz.
Ela lamenta, porém, que o investimento ainda é mais direcionado à categoria masculina.
“Nós temos apoio do Feipe (Fundo Especial de Incentivo a Projetos Esportivos). Mas essa verba é destinada à categoria juvenil e não ao time feminino adulto. É pouco, mas a gente tenta trabalhar com o pouco que tem. No geral, a Associação Pé Vermelho Rugby tem apoio também, mas a maior parte da verba vai para o time masculino por conta dos campeonatos que disputam, exige um pouco mais. Mas a gente sabe que no geral, não só no rugby, existe uma tendência para que o masculino tenha prioridades”, analisa.
Situação parecida é a que vive o futsal feminino em Londrina. Com um pouco mais de visibilidade do que o rugby, o futsal tem a seu favor um forte aliado que impulsiona o esporte. “O futsal feminino tem ganhado um pouco de espaço graças às transmissões de televisão que exibiram o título mundial da categoria conquistado pelo Leoas da Serra, equipe de Lages-SC, e o Grand Prix que a seleção brasileira disputou também em Santa Catarina. Isso ainda não trouxe resultados no que diz respeito a patrocínios, mas essa visibilidade já é um caminho interessante”, avalia Vanda Cristina Sanches, coordenadora do Londrina Futsal feminino.
Falta de apoio talvez nem seja o maio desafio a ser superado. O preconceito, mal que ainda atinge as classes menos favorecidas, parece estar bem longe de ser extinto. “Criam estereótipo de que o rugby é para homens, que a menina que joga é sapatão, sexualizam o esporte. Aqui pode ter sim, gay, hétero, mas ninguém pode julgar”, defende Mariana.
SEXO FRÁGIL?
Empoderar. Ato de tomar poder, passar a ter domínio e tomar decisões sobre sua própria vida. Não deixar que opiniões preconceituosas passem por cima de suas vontades é algo que as mulheres têm feito e obtendo resultados.
Natália Falavigna, primeira atleta brasileira de taekwondo a conquistar uma medalha olímpica, em Pequim 2008, lembra o fato de ter feito parte de uma geração que iniciou esse processo. “Eu fico feliz de ter participado de uma época do empoderamento feminino. Foi uma Olimpíada das mulheres. Aquela edição tivemos bons resultados e o que vimos foi esse preconceito de sexo frágil caindo por terra”, comemora.
Para Vanda Sanches, tomar iniciativa e ter coragem são um grande passo. “A participação da Marta na Copa do Mundo foi fundamental não apenas pela questão técnica, mas também como pessoa, como legado. É importante as meninas terem referências como essa e ter a coragem e a iniciativa de mergulhar no futebol, no futsal, fazer aquilo que gosta e que acredita”, diz.
Ainda segundo a técnica de futsal as mulheres devem vivenciar o esporte como algo lúdico, uma atividade presente em seu dia a dia. “Não só para competir, mas também por lazer, as meninas precisam começar a fazer como os homens, marcar para jogar bola com as amigas, sentar e tomar algo, jogar conversa fora, isso deve acontecer, pois nós mulheres temos esse direito também”, enfatiza Vanda.
Se o esporte é o caminho para um mundo mais justo, onde homens e mulheres tenham o mesmo direito, não sabemos. Mas a certeza de que se houver o poder de dizer sim, as mulheres podem conquistar aquilo que mais querem. Respeito.
“No rugby, mais do que a prática de esportes, queremos passar valores para as meninas. Muitas vezes a sociedade as reprime, aqui elas vão ter o poder de autoconfiança, voz, trabalho de liderança, e o que a gente leva pra dentro de campo a gente realiza fora dele também”, finaliza Mariana.

Pioneira do futsal defende mais investimentos e respeito às diferenças
Jogadores com salários milionários, multas rescisórias que superam a casa dos bilhões de reais. Ser jogador de futebol é um sonho para muitos meninos de todo o mundo. Com uma realidade bem diferente, o futebol feminino tenta ganhar popularidade num cenário cada vez mais machista.
Uma das pioneiras do futsal feminino em Londrina, a ex-jogadora e atual coordenadora da modalidade na cidade, Vanda Sanches, afirma que a luta financeira é pela equiparação e não igualdade. "A igualdade nunca vai existir. O futebol masculino tem todo esse glamour por conta do investimento que se faz. Qual é o retorno que o futebol feminino traz para os patrocinadores hoje? É muito gritante a diferença. Alguém precisa começar a investir, os órgãos responsáveis, CBF, Fifa, CBFS (Confederação Brasileira de Futebol de Salão), precisam auxiliar esse processo porque se não nunca terá retorno", alerta.
Por outro lado, Sanches diz que a briga por respeito, essa sim, é à igualdade. "Nós precisamos entender que as mulheres não querem que as diferenças sejam desrespeitadas. Nós sabemos que tem diferença, a mulher que pratica um esporte continua sendo mulher. É preciso ter respeito às diferenças".
Recentemente, foi realizada na França a Copa do Mundo de futebol feminino. Durante o evento o debate que margeou programas esportivos foi o incentivo à prática da modalidade, algo que para a coordenadora do futsal feminino londrinense tem mudado. "Fizemos uma seletiva com cerca de 90 meninas entre 11 e 17 anos. Durante os testes, pais, avós, familiares estiveram presentes torcendo pelas meninas para que fossem selecionadas. As famílias estão apoiando um pouco mais as meninas que estão em busca desse sonho", afirma.


