Cesar AugustoCom a alegria que fez dele o mais famoso dirigente do futebol norte-paranaense, Franchello diz o que pensa sobre o Tubarão No momento em que os desportistas de toda a região se assustam diante da possibilidade de que o time do Londrina Esporte Clube venha a desaparecer, a Folha abre o debate com as pessoas que fizeram a história do futebol londrinense. Ninguém melhor para abrir a série do que Carlos Antonio Franchello, 73 anos, que comandou o clube por 15 anos e até hoje é chamado de ‘‘presidente eterno’’. Com a energia e o bom humor de sempre, Franchello responde aqui a onze perguntas formuladas pelo repórter. E bate duro.
Folha - Esta crise pode matar o Londrina?
É claro que, se extremos cuidados não forem tomados, o futebol da cidade pode morrer a qualquer momento. Mas o clube não morrerá nunca. Nenhum bandido conseguirá acabar com 41 anos de história. O Londrina viverá eternamente, com ou sem dívidas. Entretanto, se o futebol desaparecer, o clube não será o que sonhamos no passado.
Folha - O que é que levou o Londrina a esta situação?
A incapacidade de várias diretorias passadas, que receberam do meu grupo um clube com patrimônio e sem dívidas e jogaram tudo fora. O Zamboni e o Fiori Luiz ainda conseguiram entregar o Londrina sem dívidas, mas depois outros dirigentes vieram pensando em ganhar dinheiro. O Londrina foi o pára-choque deles até para negócios particulares. Deixamos um andar no Edifício Banco da América; um alqueire e meio ao lado da sede campestre; dois ônibus que foram a sensação da época, e que eram visitados pelos curitibanos quando jogávamos na Capital; e móveis de secretaria. Ainda me lembro dos saudosos Sebastião Aguiar e do Meneghin com uma relação de 33 jogadores médios e bons, que deixamos com passe preso ao clube. Tínhamos o melhor parque infantil da região na nossa sede. Acabaram com tudo, até com uma placa colocada no parque, com o nome da minha saudosa mãe. Não respeitaram ninguém. No Londrina, o ‘‘El Ni¤o’’ passou há muito tempo e acabou com tudo.
Folha - O Londrina foi roubado por algum de seus dirigentes?
Por apenas um, não. O Londrina foi roubado por muitos dirigentes. É só fazer um levantamento para ver quem são os ladrões, que há muito tempo já deveriam estar na Penitenciária do Estado.
Folha - A SAL foi uma boa para o clube?
Na verdade, a SAL foi uma prorrogação de vida para o futebol profissional da cidade, que já estava morrendo quando ela chegou. Mas faltou ginga de corpo dos dirigentes da SAL para contratar bons jogadores. Veio muita gente em fim de carreira. Eles se envolveram com manjados empresários, que só querem ganhar dinheiro com transações de jogadores, e que gostam de dar uns ‘‘presentinhos’’ a certos dirigentes na hora de fechar os negócios.
Folha - É justo que a SAL seja responsabilizada por dívidas que o Londrina já tinha?
A SAL não tem como fugir destas dívidas, porque usou o nome do clube. Ninguém compraria kits da SAL. A torcida comprou os kits do glorioso Londrina. Portanto, se a SAL vendeu o nome do Londrina, tem também que pagar as suas contas. Esta sociedade ainda deve à torcida um balancete claro do que foi feito com o dinheiro arrecadado. Para que os torcedores não achem que jogaram o dinheiro fora mais uma vez.
Folha - Qual foi a melhor diretoria que o Londrina teve?
Claro que foi aquela que integrei durante 15 anos. Construimos o maior patrimônio da história do esporte norte-paranaense. Não dá para esquecer Jair e Pedro Assumpção, João e Odilon Fuganti, Joelmi Meneghim, Sebastião Aguiar, Manoel De Domênico, Espanhol, Lourenço Garcia, Osmar Mansano, Pedro Caloni, Murilo Zamboni, Pedro Caraco e tantos outros.
Folha - E qual foi a pior?
Tivemos muitas diretorias ruins, mas as duas ou três últimas foram terríveis.
Folha - O senhor é favorável a uma devassa total na vida do clube?
Francamente favorável. É o único jeito de cobrar tudo o que levaram do nosso clube.
Folha - Quem seriam os nomes indicados para comandar o futebol londrinense nos dias atuais?
O prefeito e o presidente da Câmara deveriam comandar o futebol da cidade. Não botando dinheiro, mas fiscalizando tudo. O Executivo e o Legislativo atrairiam o empresariado, e os nomes por eles indicados não seriam rejeitados por ninguém.
Folha - O que é que o senhor acha da idéia de mudar o nome do clube e começar tudo de novo?
Esta idéia não tem fundamento. Existem leis da FIFA, da CBF, das federações. O legítimo Londrina desapareceria e teríamos que começar do zero. Se fosse tão fácil assim, todos os clubes já teriam trocado de nome, porque todos eles têm dívidas. É uma idéia que já nasce morta.
Folha - Então, o que fazer para tirar o Londrina desta crise?
O Londrina não pode ficar pedindo esmolas por aí. É preciso partir para grandes projetos. Se estivesse comandando o clube, eu iria falar com meu amigo Belinati e com o presidente da Câmara Municipal. Solicitaria uma área de terras para loteamento. Seria o Jardim Alviceleste, com estrutura completa. Homens de credibilidade no setor imobiliário seriam convocados pelo prefeito e loteariam a área. Uns oito alqueires seriam suficientes. Com a venda dos lotes, o Londrina pagaria todas as suas dívidas e ficaria com um caixa para os anos seguintes. O clube ainda ficaria com 50 casas, para seus funcionários e seus jogadores. Até o problema de concentração desapareceria. Depois disso, novas dívidas só com autorização do prefeito.

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