São Paulo - De seus 63 anos, Pedro Muffato dedica-se ao automobilismo há quase quatro décadas. Já fez de tudo: trabalhou na roça, teve um armazém, jogou como goleiro do extinto Comercial de Cascavel, foi prefeito da cidade paranaense, ajudou a criar a Fórmula 3 Sul-Americana e hoje é dono de uma rede de supermercados. Nas ''horas vagas'', é piloto de Fórmula Truck, onde conquistou no último domingo sua primeira vitória da categoria em cinco anos de participação.
Nascido em Irati, foi em Cascavel que Muffato começou a trabalhar. ''Eu trabalhava na roça e gostava de dirigir kombi e caminhão'', lembra.
O envolvimento com carros de corrida começou por acaso, apesar de Muffato já ter interesse por veículos. ''Eu era o 'chefe de casa' e minha irmã tinha um namorado que queria me agradar. Acho que foi por isso que ele me convidou para umas corridas de rua que começaram a organizar lá na cidade. Eu era o co-piloto, mas logo descobriram que pilotava muito melhor que o namorado da minha irmã. Isso foi em 1967'', lembra o ''vovô da Truck''. ''O sonho de todo mundo era dirigir. Foi bem na época em que começaram a surgir as corridas de rua e eu e meu cunhado ficávamos entre os três primeiros sempre'', diz, orgulhoso.
Não demorou muito para ele mesmo começar a montar seus próprios carros. ''Comecei a fazer alguns para competir no Grupo 5. Eram carros comuns. A gente tirava o escapamento e punha um 'santantônio' (um tipo de gaiola que protege os pilotos). Depois veio a Fórmula 2 Brasileira, que era uma cópia de um Campeonato Argentino'', conta.
Muffato, já especialista em carros, foi convidado para correr na Argentina, mas acreditava que os brasileiros ficavam em desvantagem por causa dos carros dos rivais. Descontente, ajudou a criar a Fórmula 3 Sul-Americana em 1982 bem-sucedida, e que revela talentos.
Em 1996, quando corria nessa categoria, Muffato sofreu um dos piores acidentes do automobilismo brasileiro. ''Eu já era veterano e corriam vários moleques que não aceitavam ficar atrás de mim. Pior que eles, só os pais, que falavam: 'Filho, como você pode ficar atrás do Muffatão? Ele é mais velho que eu'. Um desses moleques tocou meu carro e bati em um barranco a 189 km/h'', assinala.
Nesse acidente, o piloto quebrou todas as costelas. ''E ainda tive um pulmão que explodiu'', emenda. ''Para mim, foi só um sono de 15 dias o tempo em que fiquei em coma. Para minha mulher é que foi uma agonia, com aquele morre-não-morre. Fiquei 26 dias no hospital e não corri mais, porque acabei tendo problemas de coluna, bacia e pernas.''
O sossego de Mail, mulher de Muffato, terminou em 2000, quando o marido comentava corridas da F-3 Sul-Americana para a ESPN. Uma dessas provas seria no mesmo fim de semana da Fórmula Truck. O promotor da categoria, Aurélio Félix, o convidou para correr e Muffato recusou. ''Só que o Aurélio veio me dizer que ia me dar um caminhão pronto. E que seria só uma corrida. O problema é que o caminhão era tão ruim que fiquei em último.. Que vergonha! Tive de aceitar outra para limpar a minha barra, e mais outra, até que resolvi montar a minha equipe e correr sozinho...'', conta.
Muffatão não largou mais o caminhão e não sabe quando vai se aposentar: ''Minha mulher não gosta mesmo que eu corra. E lá em casa ainda tem o David, meu filho, que corre de Stock Car. Vou guiar enquanto estiver me divertindo ou até o dia em que achar que estou atrapalhando os outros. Pela vitória de Fortaleza, acho que ainda tenho muito gás.''

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