São Paulo - Por baixo da pele magra, do rosto encovado e das pernas arqueadas de Rivaldo, está a musculatura de um herói. Daria para fazer um livro sobre sua vida, mas o período entre 1997 e 2002, quando fez chover no Barcelona, não pode passar batido. Em 1999, foi eleito o melhor do mundo. Em 2002, com a seleção, foi protagonista da campanha do penta ao lado de Ronaldo.
Por cima da pele magra, Rivaldo tem cicatrizes. A mais funda é a morte do pai após um atropelamento quando ele tinha 16 anos. Romildo Vítor, humilde jardineiro da prefeitura de Recife, foi atropelado por um ônibus e faleceu por falta de assistência médica. O craque mostrou que a ferida está aberta, 30 anos depois, durante as manifestações políticas na Copa das Confederações. "Até hoje dói quando lembro que meu pai foi atropelado e morreu por não ter sido atendido em um hospital público de Recife", desabafou.
A carreira de Vado, seu apelido de infância, quase se foi junto com o pai. Pudera. Romildo lhe dera o primeiro par de chuteiras, um luxo para o salário minguado de servidor municipal. E o levara para as divisões de base do Santa Cruz. Foi dona Marluce quem teve de segurar as pontas.
As chuteiras que Rivaldo usa ainda no treino do São Caetano não devem ser muito diferentes daquelas dadas pelo seu Romildo. De longe, lembram o antigo Kichute, qual adulto não se lembra dessa marca? As chuteiras de Rivaldo destoam das fosforescentes, amarelas e douradas que passeiam nos pés vinte anos mais jovens.
Apesar de rico, o craque é um cara humilde que sai do treino de chinelo, camiseta branca e bermuda. Não usa anéis, correntes, óculos. Tem carrão, uma Range Rover branca, mas cumprimenta os funcionários e mostra que não se desfez das lembranças sofridas na periferia do Recife. Aos 11 anos, Vado pegava um tabuleiro e vendia doce pelas ruas do município chamado Paulista, no Recife. Talvez por isso os amigos dizem que ele é mão de vaca hoje em dia...
Faltou responder a uma questão fundamental: por que Rivaldo continua a jogar? "Ele faz porque gosta", explicou Leto, amigo do carrossel caipira do Mogi Mirim, de 1992, outra referência obrigatória na carreira. Toda paixão, no entanto, é prima da obsessão. E, em alguns momentos, o meia passa do ponto. Quando teve uma lesão no joelho esquerdo e ficou quase quatro meses parado, ficou preocupado com o que pensariam. "Ele queria apresentar os exames para a diretoria para mostrar que estava mesmo contundido", disse Roberto França, fisioterapeuta do São Caetano.
Ainda se orgulha de alcançar os 20 km/h na esteira no teste ergométrico, superando os mais jovens. Vai entender a cabeça dos craques. (G.J./A.E.)

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