Foi sepultado no final da tarde de ontem, no Cemitério São Paulo, o corpo do jornalista esportivo e ex-presidente do Londrina Esporte Clube, Murilo Zamboni. Ele morreu na noite de terça-feira, aos 75 anos, depois de se submeter a uma cirurgia e ficar 12 dias internado no Instituto do Câncer.
Murilo Zamboni mudou-se para Londrina em meados dos anos 50 e nunca mais deixou a cidade, exceto em rápido período em que foi técnico do Café, de Cianorte. Tornou-se uma figura notória, que chegou a ser folclórica. Comentarista esportivo no rádio e na tevê, fazia questão de aparecer usando a camisa do Tubarão. Destacou-se como cronista esportivo defendendo as cores do clube e utilizando linguagem de fácil compreensão para o torcedor de arquibancada.
Sempre manteve estreita relação com o Londrina. Foi roupeiro, supervisor, técnico e chegou à presidência do clube, no biênio 1984/85. ‘‘Certamente, é o único caso brasileiro de roupeiro que chegou a ser presidente’’, destaca o também jornalista esportivo JB Faria.
Apesar da profissão que exercia, Zamboni era considerado torcedor-símbolo do Tubarão. Ele mesmo fazia questão de assumir publicamente sua paixão pelas cores azul e branca. ‘‘O meu negócio é o Londrina. Às vezes, durante os comentários, eu me esqueço de que existe um adversário e só falo no Londrina’’, disse ele à Folha na reportagem ‘‘Zamboni: ‘Agora já posso morrer’’, publicada no dia 30 de novembro de 81, em comemoração ao Campeonato Paranaense daquele ano, conquistado do jeito que ele queria, em cima do maior rival – o Grêmio de Maringá.
Com seu jeito simples e carismático, Murilo Zamboni protagonizou muitas histórias. Algumas, já caíram na mitologia e no folclore do futebol paranaense. No início da década dos 60, o então presidente do Londrina, Carlos Antônio Franchello foi comprar alguns jogadores do Corinthians, de Presiente Prudente. A diretoria do Corintinha concordou com a proposta, mas exigiu um avalista.
Em Londrina, Zamboni se caracterizou pelo comportamento despojado de bens materiais. Mas não houve dúvida. Como ele não era conhecido no interior de São Paulo, foi travestido de fazendeiro e seguiu para Presidente Prudente. O negócio foi fechado e Franchello assegurou, ontem no velório, que a dívida foi paga integralmente.
Nem só no futebol Murilo Zamboni fez História. Assim que chegou a Londrina, vindo de Bicas, cidade mineira próxima a Juiz de Fora, onde foi criado, Zamboni exerceu a profissão de barbeiro. Trabalhava num estabelecimento na Rua Senador Souza Naves, entre a Pará e a Goiás.
Seus amigos contam que certa ocasião teve uma discussão com o proprietário da barbearia e abandonou o serviço deixando um cliente com a cara ensaboada e apenas meia barba raspada. O cliente era Jacy Scaff, que também viria a ser presidente do Londrina e seu grande amigo.
As histórias que protagonizou, o jeito simples e autêntico e a verdadeira devoção que nutria pelo Londrina lhe renderam muitos amigos. ‘‘Nunca vi ninguém que tenha reunido em volta do caixão tanta gente diferente, de todos os segmentos e classes sociais, como Zamboni’’, destacou Fiori Luiz, parceiro de rádio, tevê e na direção do Londrina.
‘‘Estou triste pelo seu passamento, mas feliz em verificar o quanto ele era querido nesta cidade. Muito mais difícil é morrer sem ter amigos para carregar o caixão’’, disse o irmão mais velho, Moacir Zamboni, demonstrando resignação. Amizade e carinho são os semtimentos de todos os amigos que foram dar o último adeus ao Zambeta. ‘‘Este homem viveu intensamente. Era um boêmio incorrigível e amou a tudo que gostava com muita intensidade. Amou especialmente o Londrina Esporte Clube’’, sintetizou Flávio Campos, igualmente cronista esportivo.
O sepultamento de Murilo Zamboni apresentou um momento emocionante. Foi quando seus amigos carregaram o féretro da capela do Cemitério Parque das Oliveiras para o enterro no Cemitério São Paulo. O rápido cortejo foi feito sob os acordes do hino do Londrina Esporte Clube. E como ele desejou em vida, seu caixão estava coberto pelo sagrado manto alviceleste.

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