Monsieur Zagallo
MONSIEUR ZAGALLO
Números são favoráveis ao treinador. Ou não?
Agência Estado
Arquivo FolhaEstatísticaCom Mário Jorge Lobo Zagallo no comando técnico, a Seleção Brasileira disputou 139 jogos com 101 vitórias, 28 empates e apenas dez derrotasEle já foi acusado de ser o maior retranqueiro do País. Mas os números estão a seu lado e parecem provar o contrário. Mário Jorge Lobo Zagallo, 66 anos, alagoano de Maceió, é o único tetracampeão mundial da história do futebol. Conquistou dois títulos como jogador (58 e 62), um como treinador (70) e outro como coordenador técnico (94).
Não bastasse isso, Zagallo também é o recordista no comando da Seleção Brasileira: foram 139 jogos, com 101 vitórias, 28 empates e apenas dez derrotas. Nesta maratona, a Seleção marcou 317 gols (média de 2,3 gols por partida) e sofreu outros 102 gols (média de 0,72 por jogo).
Nada mal, para o garoto franzino que muito cedo foi para o Rio tentar a sorte no futebol e que chegou a participar do mutirão para a construção do estádio do Maracanã, para a Copa de 1950 (o Brasil perdeu para o Uruguai por 2 a 1 na final da competição).
Jogador amador do América, na época, o jovem torcedor Zagallo não perdeu nenhuma partida daquela Copa. Pouco tempo depois, se tornaria o primeiro jogador do País com passe livre, numa época em que a relação dos atletas com os clubes era de extrema dependência.
Zagallo tinha acabado de sair do juvenil do Flamengo quando assinou o seu primeiro contrato profissional. Imediatamente ele exigiu a liberação do passe, que foi negada porque disseram que não podia ter passe livre no primeiro contrato.
Aquivo FolhaDupla 98Zagallo e o coordenador técnico Zico: duas cabeças à frente do timeAo término do contrato, ele disse que não jogaria mais caso não liberassem seu passe. Os dirigentes acreditaram em seu potencial e aceitaram as condições de Zagallo, mas a assinatura desse contrato custou ao jovem ponta a vaga na Olimpíada de Helsinque, em 52.
A partir daí, a carreira de Zagallo começou a deslanchar. Depois da consagração na Copa de 58, ele se transferiu para o Botafogo, onde ganhava mais do que o ídolo Garrincha. Para a Copa de 62, no Chile, ganhou a posição de Pepe, do Santos, considerado na época o chute mais forte do país.
Depois que voltou do Chile, Zagallo se machucou e pediu para jogar nos aspirantes enquanto se recuperava, situação que dificilmente outro campeão mundial aceitaria. Quando parou de jogar dirigiu o juvenil do Botafogo. Subiu para o time profissional e foi bicampeão estadual e da Taça Guanabara (67/68).
Com a carreira de técnico já consagrada, acreditava que seria chamado para dirigir a Seleção, mas a CBF optou por João Saldanha, que tirou a equipe do descrédito. A sorte estava mais uma vez ao lado do ex-jogador. Saldanha foi afastado por problemas políticos e Zagallo convocado. O Brasil foi tricampeão no México. Até hoje alguns acreditam que Zagallo levou a fama por um time imbatível montado por Saldanha.
A estréia de Mário Jorge Zagallo como técnico da Seleção Brasileira não podia ser melhor. O Brasil venceu o Chile, por 5 a 0, em um amistoso disputado em São Paulo, em março de 1970, como preparação à Copa do Mundo. Daquela estréia contra o Chile até hoje foram 139 jogos do Brasil sob o comando de Zagallo, com 101 vitórias, 28 empates e apenas dez derrotas. Sobre o ponto de vista matemático, Zagallo ganhou 80% dos pontos que disputou.
Mas a carreira de Zagallo não foi marcada somente por glórias. Em 74, teve que amargar um quarto lugar na Copa da Alemanha. Passaram-se 20 anos quando ele voltou à Seleção como coordenador-técnico, ao lado do treinador Carlos Alberto Parreira, preparador físico da seleção tricampeã, em 70, e companheiro de Zagallo nas temporadas pelo futebol árabe depois do fracasso de 74.
Os dois conquistaram o tetra e, logo depois, Zagallo foi chamado para assumir o comando do time que tentaria a inédita medalha olímpica. Com fama de pão-duro e supersticioso, Zagallo cerca-se de amuletos e manias. Considera que sempre teve uma estrela ao seu lado, o iluminando, e o número 13, para ajudá-lo nas conquistas.
Como técnico da seleção, Zagallo disputou vários títulos. Foram duas Copas do Mundo, uma Olimpíada, duas Copas América e vários torneios de menor importância. Foram 10 disputas, no total. Zagallo ganhou a Copa do Mundo no México, em 70, mas perdeu a da Alemanha, quatro anos depois. Foi derrotado na Copa América no Uruguai, em 95, mas ganhou a que foi disputada na Bolívia, em 97.
O ouro olímpico permanece um sonho para o futebol brasileiro. O Brasil de Zagallo ganhou o Torneio Pré-Olímpico, no início de 96, em Mar del Plata, mas quatro meses depois estreava na Olimpíada de Atlanta com uma surpreendente derrota para o Japão. Era o prenúncio do que aconteceria em seguida, quando o time brasileiro foi batido pela Nigéria, nas semifinais. Em vez do ouro, o Brasil voltou com a medalha de bronze (5 a 0 nos portugueses, na disputa pelo terceiro lugar).
Mas pouca gente se lembra disso, assim como poucos se recordam também da Taça Independência, conquistada pelo Brasil de Zagallo, em 72, em jogos disputados no Rio e em São Paulo contra a então Tchecoslováquia, a Iugoslávia, Escócia e Portugal.
Um ano antes, em dois empates por 1 a 1, em Buenos Aires (com direito a gol de Tostão), o Brasil conquistou também a Copa Rocca. Foi o fim de uma história de confronto entre os dois eternos rivais do futebol sul-americano, que começara em 1914, quando a Copa Rocca foi disputada pela primeira vez.
A seleção de Zagallo terminou invicta o Torneio da França, em 96, mas o título ficou com os ingleses. Uma espécie de revanche do Torneio da Inglaterra, um ano antes, quando a Seleção Brasileira ficou com o título, derrotando os donos da casa em pleno Estádio de Wembley.
No ano passado, o título veio das Arábias, com a vitória brasileira na Copa do Rei - e com direito a uma goleada, por 6 a 0, sobre a Austrália, na decisão do torneio.
O ano da Copa do Mundo começou mal para Zagallo. Em duas semanas, a Seleção Brasileira fez a festa de jamaicanos e guatemaltecos (empates de 0 a 0 e 1 a 1, respectivamente) e dos frios torcedores norte-americanos. Pela primeira vez, em 68 anos, a Seleção dos Estados Unidos fez um gol no Brasil (1 a 0). Suficiente para tirar o time brasileiro da disputa do título.
Como consolo, houve a revanche contra a Jamaica, na disputa pelo terceiro lugar. Goleada brasileira: 1 a 0, gol de Romário, quase ao final da partida. A reabilitação veio em março, na vitória por 2 a 1 contra a forte seleção da Alemanha, em Stuttgart.
No dia 29 de abril, no Maracanã, diante de 99 mil pagantes, a Seleção se despediu da torcida brasileira antes da viagem para a França. E não poderia ter deixado pior impressão: perdeu de 1 a 0, gol de Cláudio Lopez, sob estrondosa vaia dos torcedores. Era a primeira derrota do Brasil para uma seleção sul-americana sob o comando de Zagallo.





