Há algum tempo, o mundo das artes marciais já não é tão masculino como em décadas passadas. Desde que o UFC deu o empurrão que faltava para bombar de vez o universo das lutas, há uns cinco anos, as mulheres literalmente invadiram o que antes era um ambiente estritamente dos homens. Uma pesquisa recente realizada no Brasil apontou que pelo menos 47% do público que se interessa pelo MMA é composto por elas.
O próprio UFC, o maior evento de lutas do mundo, demorou a se dar conta disso. Muito pela teimosia de seu próprio presidente, Dana White, que relutava em inserir lutas femininas. Até que em 2013 ele se rendeu e não deve ter ser arrependido. O segundo evento com combates entre mulheres, em abril do ano passado, em Las Vegas, gerou R$ 18 milhões só com vendas de pacotes "pay per view".
O reflexo foi imediato. Mulheres de todo o mundo passaram a se inspirar em Ronda Rousey, americana campeã da categoria peso-galo, considerada o maior nome do MMA feminino mundial. A londrinense Daniely Gomes Professor, de 20 anos, é uma delas. Adepta do caratê desde a adolescência, ela interrompeu um período de inatividade para aceitar o convite de uma amiga e começar a treinar kickboxing. Ontem, após cinco meses de treinos, subiu ao octógono para sua primeira luta e não fez feio. Perdeu por pontos para Vivian Perdigão a luta feminina do FightNation Superfit, evento disputado na Academia Team Nogueira, em Londrina.
Ela revela que já até faz planos de migrar para o MMA. "Quero começar a fazer jiu-jítsu em breve e pegar firme nos treinos. Meu sonho é ser campeã do UFC", conta a lutadora, que é uma aficionada por lutas. "Assisto muitas lutas do canal Combate (canal de lutas por assinatura). Minha mãe não gosta, mas é o esporte que eu amo", diz.
Celeiro de grandes nomes do esporte, o Brasil já possui até um evento de lutas femininas, o Pink Fight, que vem crescendo a cada ano, graças a nomes como Cris Cyborg, detentora do cinturão do Strikeforce entre 2009 e 2011 e é o maior nome do esporte no país. Em 2012, ela foi pega no antidoping.
A trajetória de Daniely ainda difere da maioria das mulheres. "90% delas vêm em busca de condicionamento físico e qualidade de vida", relata o professor Guilherme Belarmino. Foi o que atraiu Vivian Perdigão. Mãe de dois filhos pequenos, ela encontrou no muay thay seu esporte preferido há um ano. "Emagreci 12 quilos. E tinha também uma TPM muito intensa, tomava até remédio para controlar e com cinco meses parei de tomar. Cada treino é uma terapia, parece que a gente sai com uns 100 quilos a menos nas costas", comenta a lutadora de 32 anos.
E as mulheres parecem mesmo já ter descoberto os benefícios das lutas. E quem comemora são as academias. A presença feminina já bem superior aos homens. "70% dos nossos alunos são mulheres. A maioria quer emagrecer, tonificar o corpo", cita o professor Eli Reger, o Indião, da academia Junior Vidal, também de Londrina.
Seja qual for o objetivo, elas ainda têm de lutar contra o preconceito. "Muitos amigos meus dizem que isso é coisa de homem, mas aos poucos estamos conseguindo acabar com isso", conta Vivian. E para as mulheres que ainda deixam o preconceito falar mais alto, Daniely dá o recado. "Tem que tentar, fazer a primeira e meter a cara. É muito bom", diz.

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