Pablo com a mãe, Valquíria: "(Outras mães) Me agradeceram por eu ter ajudado seus filhos, pois durante o incêndio o segurança e eu conseguimos puxar a janela por onde outros três escaparam"
Pablo com a mãe, Valquíria: "(Outras mães) Me agradeceram por eu ter ajudado seus filhos, pois durante o incêndio o segurança e eu conseguimos puxar a janela por onde outros três escaparam" | Foto: Laís Taine


"Não penso em nada, só penso em ficar com a minha família", conta o atacante Pablo Ruan Messias Cardozo, 16, ao voltar para Londrina após sobreviver à tragédia no centro de treinamentos do Flamengo, o Ninho do Urubu, em Vargem Grande, Rio de Janeiro, na última sexta-feira (8). O adolescente voltou para a cidade neste sábado (9) acompanhado da mãe, Valquíria Aparecida da Cruz Messias. Neste domingo (10), o jovem foi homenageado por amigos e familiares em um bar da zona leste da cidade.

A sensação é uma mistura de tristeza e alegria. "Eu me sinto aliviado por ter passado por tudo e estar aqui, mas estou triste pelos amigos que eu perdi", revela. Pablo conta que desde o dia do acidente foi para um hotel no Rio, onde teve o apoio do clube e contato com outras mães. "Elas me agradeceram por eu ter ajudado seus filhos, pois durante o incêndio o segurança e eu conseguimos puxar a janela por onde outros três escaparam", recorda.

O jovem prestou depoimento à polícia do Rio de Janeiro e retornou a Londrina na noite de sábado acompanhado da mãe, que respira um pouco mais aliviada, mas ainda sensível com a situação. "Eu cheguei para buscar meu filho na madrugada de sábado, ele estava dormindo e eu não quis acordá-lo. Fiquei lá observando ele dormir, agradecendo pela vida dele. Quando ele acordou, me deu um abraço falando: 'eu estou vivo, mãe, eu estou vivo'", lembra ainda emocionada.

GRUPO EM SILÊNCIO
Trazer o filho de volta para casa tem sido um exercício de amor e solidariedade, pois sente a perda de outros adolescentes que se foram. "Nosso grupo da internet de mães dos alojados está em silêncio desde então. Estamos todas de luto", afirma. Valquíria conta que passar por todo esse processo foi muito doloroso e que só sentiu a gravidade da situação já com o filho em casa. "Até então eu estava muito preocupada, mas hoje a sensação é diferente. Chorei o dia todo, agora entendi o que houve, que meu filho está salvo", revela emocionada.

Com o retorno, amigos e familiares se reuniram neste domingo para homenagear o jovem em um bar de um familiar, na zona leste da cidade. Mensagens de carinho e gratidão foram apresentadas em um telão. "Pablo é um sobrevivente. Ele conseguiu sobreviver e a gente está aqui para agradecer pela vida dele", fala no microfone a amiga da família, Thais Trizotti, responsável por avisar a mãe no dia do acidente.

Junto de amigos, Pablo espera que o tempo feche as feridas e não planeja nada por enquanto. A mãe, que estava com viagem marcada para Portugal no início de março, desmarcou para acompanhar o tratamento do filho. "O Flamengo está dando toda a assistência, dispensou todos os meninos e disse que meu filho não tem prazo para voltar, mas disse que está de porta abertas caso essa seja a decisão dele", afirma a mãe.

IDENTIFICAÇÃO
Terminou no começo da tarde desse domingo (10) o trabalho de identificação dos dez atletas do Flamengo que morreram após o incêndio no CT do clube.

O Instituto Médico Legal (IML) estava com dificuldades para identificar duas das vítimas. Os dois últimos jogadores identificados foram Jorge Eduardo dos Santos Pereira Dias e Samuel Thomas de Souza Rosa, ambos de 15 anos.

Na manhã de domingo, Simone de Souza, tia de Jorge Eduardo, havia reclamado publicamente da demora na liberação do corpo do sobrinho. "O Flamengo não tem arcada dentária, o Flamengo não tem nada do Jorge Eduardo. A arcada dentária que eles falam que têm é aquele orçamento que fazem no dentista, foi isso que apresentaram para a gente e não é suficiente. Tão dando todo o apoio, mas para liberar o corpo, é a gente que está indo atrás."

Devido à dificuldade na identificação dos corpos, havia o temor de que o reconhecimento só pudesse ocorrer a partir de exames de DNA, o que inevitavelmente levaria dias para se obter um resultado.

Os peritos, contudo, conseguiram identificar as vítimas a partir de uma técnica chamada "antropologia forense", que se baseia no biotipo dos corpos - os dois últimos jogadores tinham características físicas bem diferentes, e com base em informações e exames do Flamengo foi possível identificá-los.

Os demais jogadores mortos no incêndio são Arthur Vinícius de Barros Silva, Pablo Henrique da Silva Matos, Vitor Isaías Coelho da Silva, Bernardo Pisetta, Gedson Corgosinho Beltrão dos Santos, Áthila de Souza Paixão, Christian Esmério e Rykelmo de Souza Viana. (Colaborou Agência Estado)

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