Microchip de DNA promete acabar com as mortes súbitas no esporte
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 16 de abril de 2012
Thiago Mossini <br> Enviado a Lisboa 
Cascais, Portugal - O mundo chocou-se novamente no último sábado com a morte de mais um atleta no desempenho de sua profissão. O meia do Livorno Piermario Morosini, de apenas 25 anos, sofreu uma morte súbita aos 31 minutos do primeiro tempo, quando seu time vencia o Pescara por 2 a 0 em duelo válido pela Série B do Campeonato Italiano. O caso dele vem sendo cada vez mais recorrente no esporte. No mês passado, o meia togolês Fabrice Muamba, de 23 anos, do Bolton, da Inglaterra, também sofreu um ataque em campo, mas conseguiu sobreviver milagrosamente. A mesma sorte não teve o medalhista olímpico de vôlei pela Itália, Vigor Bovolenta, que também teve morte súbita em quadra no mês passado. E é pensando em evitar que mais mortes ocorram que um grupo de pesquisadores portugueses apresentou o que qualificaram um dispositivo que pode pôr fim às mortes no esporte, o Microchip de DNA.
A nova tecnologia foi apresentada na semana passada em um hotel em Cascais, no litoral português, e faz a análise de mutações de DNA que permitem detectar se uma pessoa está sujeita a um risco elevado de sofrer de Miocardiopatia Hipertrófica, principal causadora da morte súbita. A FOLHA foi o único veículo brasileiro de comunicação no lançamento do chip.
O produto foi desenvolvido no Instituto Superior Técnico (IST) e no Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores, Investigação e Desenvolvimento de Lisboa (INESC-ID). Foram mais de sete anos de estudos e mais de 400 testes em atletas até chegar à certeza de que ele é confiável. O Microchip de DNA vai ser lançado no mercado pela empresa portuguesa SHPG-HeartGenetics.
O produto promete revolucionar o mercado, já que não havia nada que garantisse que uma pessoa teria a probabilidade de sofrer uma morte súbita antes. ''O primeiro sintoma de morte súbita é a própria morte súbita, por isso, não há esperança. Mas isto representa uma esperança para o atleta. Estamos a dar oportunidades de vida'', lembrou Ana Teresa Freitas, uma das pesquisadoras envolvidas no projeto.
Como funciona?
O microchip recebe os genes associados à Miocardiopatia Hipertrófica, que são cruzados com o DNA do atleta. Ele comporta um painel de 16 testes genéticos para doenças cardiovasculares e cobre 100% dos genes - são 30 ao todo - associados à Miocardiopatia Hipertrófica, com uma sensibilidade de 80% e uma especificidade de 99%. Podem ser analisadas as 900 mutações que determinam a patologia, usando tecnologias de débito elevado e em até quatro semanas. Hoje, o ecocardiograma ainda é o método usado para tentar detectar um fator de risco.
''Conseguimos detectar o conjunto de mutações no genoma que estão associadas à Miocardiopatia Hipertrófica e que, segundo a comunidade cientifica, têm forte relação com a morte súbita. No chip que estamos a desenvolver associamos mais três patologias que cobrem outra grande porcentagem das patologias que têm associação à morte súbita'', explicou Ana Teresa. ''Isto quer dizer que, com todos estes dados, poderemos passar para o cardiologista do atleta uma informação precisa do tipo de alteração que ele tem no genoma. A partir destes dados, caberá ao médico atribuir-lhe a gravidade'', completou.
Especialista em medicina esportiva e cardiologista do Porto por duas décadas, o médico Domingos Gomes é o conselheiro científico do projeto. Ele considerou um avanço muito grande a conclusão da pesquisa. ''Não é um teste, é o teste'', resumiu.
Os testes estarão disponíveis no segundo semestre, segundo Pedro Ribeiro, presidente da SHPG-HeartGenetics. O valor ainda está em estudo. ''Estamos ainda em negociações e por isso não posso divulgar os valores, mas esperamos ter o produto no mercado a partir de agosto ou setembro'', explicou.
Na apresentação da tecnologia, que contou com a presença de ex-atletas e dirigentes de clubes, o ex-jogador português Hélder mantinha uma atenção especial à apresentação do microchip. Em 2004, ele viveu de perto o drama de perder um companheiro por causa de morte súbita. Ele era o capitão do Benfica quando o húngaro Miklos Feher, morreu durante um jogo entre o time deles e o Vitória de Guimarães.
''É um passo enorme na medicina desportiva. Com isto, podemos evitar casos como o do Feher. É um avanço muito importante'', afirmou o ex-jogador.
No mês que vem, a Fifa realiza seu congresso médico em Bucareste, na Romênia, que deverá ter como tema principal a morte súbita no futebol.
- O jornalista viajou a convite da SHPG-HeartGenetics


