Um dos herdeiros do shotokan, técnica de caratê mais tradicional do mundo, está em Londrina. Trata-se do septagenário Kiichi Hiraishi, que atualmente é conselheiro da Nihon Karatê Kioday, entidade reconhecida pelo Ministério da Educação do Japão. Guru do já falecido Norio Haritani, introdutor do caratê na cidade, ele veio a convite dos membros da Associação Londrinense de Karatê (ALK).
Na primeira visita ao Brasil, o sensei irá ministrar um curso de fundamentos do shotokan hoje, a partir das 10 horas, no templo budista Honganji, na rua São Luiz. Após treinar judô e kendô no dojô Heian, conheceu o karatê com Nakayma Massatoshi aos 16 anos, sucessor do Ghichin Funakoshi - o criador do shotokan - e nunca mais abandonou. ''Eu praticamente me converti ao caratê'', precisou.
Segundo Luiz da Silveira, discípulo de Haritani, ele aceitou o convite para conhecer o legado de Haritani, seu discípulo quando esteve no Japão, sem titubear. ''Norio treinou com ele por três anos. Hiraishi se recorda até do dia que ele chegou na sua academia com 14 anos'', conta.
''Introspectivo e esforçado. Ele era mais ou menos essa pessoa. Por isso cresceu rapidamente na vida'', resumiu Hiraishi, sorridente. Com 75 anos, ele surpreendeu tanto alunos que treinaram com Norio, como o próprio Silveira e Rubem Cauduro, quanto novatos que receberam o mestre no dojô em Brasília, onde passou uma semana antes de chegar a Londrina.
Cauduro destaca que existem movimentos do kata (luta contra adversários imaginários), que nem mesmo jovens com notável flexibilidade conseguiam saltar mais alto. ''Foi uma senhora aula'', disse, impressionado.
''O sensei que cuida do dojô de Brasília definiu como um experiência inesquecível. Muitos alunos ficaram boquiabertos'', completou, ressaltando a perfeição na execução de movimentos originais do caratê.
Tímido, respeitador, extremamente atencioso e quieto, a visita aos discípulos brasileiros marca a primeira saída de Hiraishi do Japão. Ele avalia o trabalho dos difusores como fiel às raízes orientais.
''Antes de vir para o Brasil, sabia sobre caratê quando delegações de professores de outros países iam ao Japão participar de aperfeiçamento. Assim eu avaliava'', conta o japonês.
Ao lado do Brasil, ele cita a Polônia com outro pólo forte do shotokan criado por um monge budista chamado Shimoda. Como extensão do trabalho de Haritani, existem oito filiais da ALK pelo Paraná e uma em Brasília, sendo três com dojô próprio.
Agora, a intenção de Silveira é trazer anualmente Hiraishi para proporcionar aos adeptos londrinenses o contato com as raízes do caratê. ''Essa ideia surgiu há uns 15 anos. Foi amadurecendo. Na hora certa as coisas aconteceram. O incrível é que quando fizeram o convite ele foi breve. Respondeu 'eu aceito'. Comprei a passagem e ele veio sem restrições ou perguntas'', finalizou Silveira.

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