MEMÓRIA PRESERVADA - Boleiros amadores desafiam o tempo
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domingo, 10 de dezembro de 2006
Luciano Augusto<br> Reportagem Local 
No preto e branco amarelado pelos anos que não voltam mais, a imagem de tempos difíceis mas de fartura. O poeirão que subia da terra vermelha muitas vezes encobria a visão da bola. Sem iluminação, as brincadeiras no campo do bairro precisavam do auxílio improvisado dos faróis de um velho jipe. Era assim a diversão da ''mocidade boleira'' do Patrimônio Heimtal (Zona Norte de Londrina) nos anos de 1950, da qual fazia parte o aposentado José Caponi, o ''Zizi'', que terça-feira completa 71 anos e ainda é um esforçado ponta-direita. Bravamente, o Esporte Clube Heimtal conseguiu atravessar cinco décadas de progresso e se manter na ativa. Mas a longevidade está ameaçada pela falta de interesse no futebol amador pela juventude de agora.
Zizi, um mineiro 'paranaense' nascido em Pouso Alegre (MG), conta que o campo da turma do futebol ficava justamente onde hoje é a praça do patrimônio. Cantinho nobre do bairro, ''bem em frente à venda do seo Carlos Strass''.
O primeiro time surgiu em 1953 pelas mãos do patriarca da família Caponi, Antônio, que também foi o primeiro diretor. ''Ajudei a colocar até as traves feitas com eucalipto'', recorda o boleiro, que garante que o ''amador'' ficava mesmo só no nome porque com aquela equipe não tinha essa história de jogo perdido.
A disputa que inaugurou o ''estádio'' que só existe em foto foi contra o time da Prefeitura de Londrina. Uma distinção sem preço. ''Lembro que ganhamos mas não sei mais por quanto. Aquele time nosso era muito bom, corredor'', elogia, desfilando a escalação: Viludo no gol; Renhold Strass; os irmãos Pedro e João Cabreira; Renhold Konrad; Nélson Valério; Alemão; Jair Manoel ''Nelão'' de Oliveira; Evaristo, ''o Praga Mineira, que jogava só descalço''; José Balduino, o Badú; e, claro, Zizi.
Aos domingos, um trocava a lida no cafezal, outro abandonava o volante do caminhão, mais outro o lado de dentro do balcão. Todos juntos se rendiam à magia do futebol. E os rachas duravam até de noite. Sem iluminação, era o jipe do ''seo Carlos Strass'' que clareava a escuridão para os moços continuarem no gramado. Quando passava carro, a diversão sumia em meio ao pó vermelho que subia da estrada de chão batido.
E foi assim até 1960. Neste ano, time do bairro mudou de casa e foi para o campo atual que, há seis anos, foi batizado com o nome de Estádio Municipal Fidelcino de Freitas, ''homenagem ao homem que chegou a dormir no campo para não deixar a criançada brincar no gol e estragar o gramado'', conta o presidente da associação de moradores, José Roberto Machado.
Zizi, o porta-voz dos boleiros do Heimtal, recorda que um dos adversários mais temidos nesta época era o Tigre, ''um time formado só por negros''. ''Eram todos irmãos e primos'', lembra.
Em 1º de maio de 1980, Zizi começou a escrever mais um capítulo de sua história nos campos de várzea ao formar o primeiro time de veteranos. De lá para cá, a equipe continuou acumulando páginas e se depender do entusiasmo dos jogadores - que se encontram religiosamente todo sábado à tarde -, o ponto final não vai ser colocado tão cedo.
Batizado - Mas voltando ao time principal do Heimtal, quem segura as pontas atualmente são o vigilante Ademilso Mianutti, 37 anos, e o técnico de telecomunições Roberto Carlos de Oliveira, 38. Os dois amigos estão no time desde a adolescência e hoje precisam se esforçar para conseguir juntar 11 bravos boleiros para continuarem em campo. ''Se não tiver futebol aqui não tem nada nos domingos. Mas está cada vez mais difícil conseguir equipes com aspirante e titular para jogar'', lamenta Mianutti. ''Torneios, então, praticamente não têm mais'', completa. Para Oliveira, o futebol amador está perdendo espaço e jogadores para o futebol suíço. ''O pessoal joga domingo de manhã e à tarde não quer saber mais de bola'', critica.
Mesmo assim, os dois continuam tocando o time para não ver tudo ir por água abaixo. ''Queremos dar continuidade porque a molecada que está crescendo hoje não quer saber de nada. Todo moleque hoje treina em escolinha. Na nossa época era diferente. O que a gente tinha para fazer? Jogar bola'', diz Oliveira.
Além disso, os boleiros também precisam lidar com os compromissos particulares. Neste domingo, por exemplo, não tem jogo porque tem batizado do filho de um dos ''jogadores''. Todo mundo decidiu trocar a bola pelo churrasco.


