'Meligênio' bate 6º do ranking e espera vingar Guga na semifinal
Agência Estado
O sonho ainda não acabou para Fernando Meligeni. Com a vitória, ontem, sobre o espanhol Alex Corretja, número 6 do ranking mundial, por 3 sets a 0, parciais pouco comuns de 6/2, 6/2 e 6/0, em apenas 1h25 de jogo, Fininho, como é conhecido, confirma uma brilhante campanha em Roland Garros e alcança as semifinais do torneio, num fato inédito em sua carreira. Sua vitória amenizou um pouco a tristeza dos brasileiros com a derrota de Gustavo Kuerten, na partida anterior, para o ucraniano Andrei Medvedev, também por 3 a 0, parciais de 7/5, 6/4 e 6/4, em um jogo em que o brasileiro não conseguiu mostrar o seu verdadeiro tênis.
Agora, as esperanças do tênis brasileiro não só estão nas mãos de Fernando Meligeni, como ele também tem a chance de vingar Gustavo Kuerten. Na próxima rodada, amanhã, pelas semifinais, vai enfrentar justamente o ucraniano Andrei Medvedev. O outro finalista, em jogo também marcado para amanhã, sairá do encontro entre o norte-americano Andre Agassi e o surpreendente eslovaco Dominik Harbaty.
Meligeni transformou-se no terceiro jogador do tênis brasileiro a alcançar as semifinais de um torneio do Grand Slam, como Roland Garros. Antes dele, só mesmo Gustavo Kuerten, em 1997 (foi campeão), e Thomaz Koch, em 1968. Fininho não acreditava que isso fosse possível quando começou o torneio. Mas, agora, já quer estender seu sonho até o domingo e, quem sabe, conquistar o título. Chegou a minha vez, diz Meligeni, com entusiasmo e confiança. Não esperava ir tão longe no torneio, e só passei a acreditar que poderia fazer uma boa campanha quando superei o Younes El Aynaoui, na segunda rodada.
Este adversário foi apenas um dos difíceis degraus que Fernando Meligeni - chamado pelo imprensa francesa de Meligênio - subiu nesta memorável campanha de Roland Garros. Em seu caminho para as semifinais, derrotou dois jogadores entre os 10 primeiros do ranking mundial. O primeiro deles foi o australiano Patrick Rafter, número 3 da ATP, que tinha esperanças de terminar o torneio como líder do ranking mundial. E, depois, superou também o número 6, Alex Corretja. Daqui para frente, tudo parece ser possível para este imprevisível Meligeni. Estou acostumado com as pessoas não acreditando no meu jogo. Agora sei que posso ir longe. Faz tempo que estou tentando.
A vitória de Meligeni sobre Corretja por três sets tão tranquilos não foi um resultado normal, como admitiu o próprio brasileiro. O resultado teve influência de problemas de saúde do tenista espanhol. Há dois dias pegou um alergia e amanheceu com o rosto inchado. Tomou uma série de medicamentos para poder jogar e disse que a reação surgiu na partida de ontem, em que quase não se mexeu na quadra. Sei que o resultado não foi normal, afirmou Meligeni. Sabia que poderia vencê-lo, mas não com tanta facilidade, pois no terceiro set, o Corretja quase nem andou.
O tenista espanhol atribuiu sua atuação ao efeito de medicamentos. Acha que em outra situação poderia ter dificultado bem mais o jogo e, possivelmente, até ter vencido. Agora, Corretja diz que o torneio está sem favoritos. Ninguém poderia prever que o Guga e o Rios não iriam disputar a final no domingo, afirmou. Agora, eles dois já estão na rua, assim como eu, o Rafter, o Sampras e não dá mais para se fazer previsões.
Meligeni está se candidatando a uma destas vagas no domingo. Sabe que, nas semifinais, terá um adversário bastante difícil, de estilo diferente dos espanhóis, Felix Mantilla e Alex Corretja, e promete uma mudança drástica para esta partida. Os espanhóis costumam bater na bola a um metro da quadra, diz. O Medvedev joga perto da linha e aproveita a força do adversário para ganhar os pontos, explica. Vou ter de mexê-lo de um lado para o outro se quiser vencê-lo.
Mas este argentino de nascimento - nasceu em Buenos aires, em 12 de abril de 1971 - mostrou que hoje é um tenista bem mais completo do que as pessoas conhecem e não só joga com o coração, com a garra e determinação. Aprendeu também novas técnicas e ganhou o respeito necessário para assustar qualquer adversário. A garra argentina, as incríveis corridas atrás de bolas impossíveis, sempre foram a marca registrada de Meligeni. Há algum tempo seus adversários já entravam na quadra com uma vantagem. Sabiam que se jogassem na sua esquerda (o revés) poderiam vencê-lo mais cedo ou mais tarde, não importando o quanto corresse o brasileiro.
Com quatro anos de idade, sem opção de escolha, foi morar em São Paulo, onde seu pai, Osvaldo, tinha um emprego de fotógrafo de publicidade. Com 18 anos, passou um período treinando em Buenos Aires, e, já com possibilidade de escolha, decidiu ser brasileiro. Tratou de conseguir a naturalização e nunca mais pensou em voltar atrás. Quando fui para a Argentina, com 18 anos, para treinar, vi que não tinha mais nada a ver, contou. Não fiz amigos, não me dava com ninguém, pois tudo que era meu estava no Brasil: minha família, meus amigos e vi que já era um brasileiro.
Agora, Meligeni - titular da equipe brasileira da Copa Davis - sonha em conquistar o segundo título de um Grand Slam para o Brasil. Confia em sua garra, na melhora técnica e, especialmente na sua direita.
Com a temida direita e a esquerda não tão vulnerável, e com um saque sem muita violência, mas com precisão, Meligeni vive um momento mágico em sua carreira. Seu maior desafio agora, mesmo depois de ter vencido Rafter, Mantilla e Corretja, é fazer a torcida acreditar que pode agarrar o troféu no domingo, em Paris, e confirmar que realmente chegou a sua hora.





