Medida provisória afasta futebol brasileiro do modelo das principais ligas do mundo
MP muda direito de arena e permite negociação individual nos direitos de transmissão, o que pode enfraquecer o produto futebol no país
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sábado, 27 de junho de 2020
MP muda direito de arena e permite negociação individual nos direitos de transmissão, o que pode enfraquecer o produto futebol no país
Lucio Flávio Cruz - Grupo Folha
A MP (medida provisória) 984/2020 editada pelo presidente Jair Bolsonaro no dia 18 de junho muda completamente os direitos de arena no futebol brasileiro e traz à discussão novamente o modelo de comercialização dos direitos de transmissão esportiva no país.
O principal impacto da MP, que precisa ser aprovada e transformada em lei pelo Congresso Nacional em até 120 dias, caso contrário, perde valor legal, é que ela transforma o clube mandante na única parte que pode negociar a venda das competições. Até a MP, o direito de arena no futebol brasileiro era dividido entre o mandante e o visitante.
Com a mudança os clubes podem vender para quem quiser, além de poderem negociar de forma individualizada. Este formato vai totalmente na contramão do que acontece nas principais e mais ricas ligas do futebol mundial.
"Se os clubes forem comercializar de forma individual, não pensar no campeonato como um produto, não pensar na coletividade, ela é prejudicial ao mercado. Coloca em risco a existência dos clubes menores", afirma o especialista em marketing esportivo Fábio Wolff, sócio-diretor da Wolff Sports e Marketing. "Clubes com marcas fortes, com grandes faturamentos, tendem a aumentar ainda mais a diferença com os menores. Isso atrapalha a competitividade do campeonato e a partir disso o produto fica monótono e as pessoas perdem o interesse".
O consultor de marketing esportivo e comunicação e fundador do site Máquina do Esporte, Erich Beting, ressalta que a edição da MP tem o mérito de promover o debate sobre os direitos de transmissão, mas admite que o modelo proposto é muito arriscado para a saúde financeira do futebol.
"Na venda individual quem vai colocar o valor no produto é quem compra. O grande problema é que o mercado vai baixar os preços, e o que os clubes ganham hoje dificilmente vão conseguir buscar por conta própria", prevê.
UNIÃO
O atual contrato do Campeonato Brasileiro, válido até 2024, foi assinado de forma conjunta em 2019 e depois de anos com divisões da receita levando em conta apenas o "tamanho" e a "história" dos clubes, passou a dividir o dinheiro em um sistema semelhante ao da Premier League. Metade do bolo total passou a ser dividida de forma igualitária entre os participantes, 25% pelo critério técnico e o restante pelo número de jogos transmitidos. A liga inglesa é a mais rica do futebol mundial e entre as temporadas 2019/2022 e 2021/2022 vai faturar U$$ 10 bilhões - mais de R$ 50 bilhões - em direitos de transmissão.
Mas nem sempre foi assim no Brasil. Ao longo da história, a união fora das quatro linhas nunca foi o forte dos clubes brasileiros. A última tentativa de inverter este cenário foi a criação do Clube dos 13, que foi implodido em 2011. Desde então, os clubes passaram a negociar de forma individual os contratos e os resultados não foram bons. A mudança só veio no ano passado e agora a MP pode fazer o futebol nacional voltar no tempo.
"A MP criou o problema que aconteceu na Itália e na Espanha nos anos 2000. Barcelona e Real Madrid e Inter, Milan e Juventus ganhavam muito mais que os demais. A situação mudou quando o governo interveio e criou leis exigindo que as negociações fossem coletivas e que os direitos não fossem exclusivos de uma única emissora", frisa Beting.
Fábio Wolff cita os exemplos de Portugal e México, que seguem caminhos opostos das grandes ligas mundiais. "Em Portugal a diferença é de 1500% entre quem mais recebe e os que ganham menos. Entendo que o debate sobre os direitos de transmissão deveria ser amplamente discutido, analisar os casos de sucesso e os modelos que não deram certo. Não fazer como foi feito e ainda mais durante uma pandemia que tem muitos outros assuntos importantes para se tratar. Até porque o atual contrato do Brasileiro vai até 2024 e neste caso não dá para aplicar o que rege a MP".
Modelos
Além da negociação em conjunto, as principais ligas esportivas do mundo não aceitam que os direitos de transmissão estejam nas mãos de uma única empresa de comunicação. Isso já ocorreu no Brasil no último contrato do Campeonato Brasileiro, com a entrada da Turner na disputa com a Globo. Mas ainda está longe do ideal.
"O maior problema não é a negociação individual e nem que o direito de arena seja do mandante ou do visitante. O que a gente precisa é quebrar o monopólio. A NFL (Liga de Futebol Americano), a liga que mais fatura com direitos de transmissão no mundo, tem pacotes diferentes de transmissão por dia da semana, de jogos da conferência leste, da conferência oeste. Se existem três redes de TV aberta, você vende dois pacotes diferentes para elas brigarem e, consequentemente, aumentar o valor da sua competição", cita Erich Beting. "A melhor coisa para o futebol brasileiro seria juntar o que foi o modelo da Espanha com o da Inglaterra, coincidentemente, as duas ligas que mais faturam no futebol".