O Hospital do Coração abriu ontem até o seu setor de UTI para que a reportagem pudesse acompanhar o jogo com pacientes recém-operados, que, via de regra, não deveriam passar por emoções fortes como uma partida de futebol. Porém, liberados pelos médicos, Natalino Moreno, 70 anos, e José Eudes de Matos, 48, disseram que nada os faria passar mal.
  ‘‘Já sofri muito com futebol. Estou acostumado, pois sou palmeirense e sofredor. Mas esse jogo aí vai ser tranqüilo, uns 3 a 0’’, arriscou Moreno, ainda no primeiro tempo. Entubado e olhando à tevê meio deitado, o aposentado, que veio de Assis (SP) na semana passada, após passar por um mal súbito, foi operado quinta-feira. Recebeu cinco pontes de safena e mamárias. ‘‘Tive sorte de verem o meu problema antes de eu ter tido uma coisa pior’’.
  Ao seu lado, Matos estava melhor, pois apenas recolocou três stents (molas que dilatam as artérias) no peito, depois que os anteriores deram problema. Sobre o jogo, disse que não ‘‘passa nervoso com futebol’’, por não ser fanático. ‘‘Posso assistir a qualquer jogo que nada vai me deixar mais preocupado do que os problemas financeiros’’, afirmou, lembrando que a crise nos negócios é que o levou ao hospital.
  ‘‘Sou corretor de terras e agricultor há 20 anos e tudo o que fiz bem a vida inteira agora está acabando comigo. A política do governo está matando a gente (produtores) e estou tendo que vender colheitadeira, trator e dar de mão beijada aquilo que lutei anos para conseguir’’, desabafou Matos. Ele disse que não consegue ‘‘dormir sossegado’’ ao ver as contas aumentando no banco e não conseguindo pagar. ‘‘Chega uma hora em que bate o desespero e aí não tem coração que agüente’’, contou o agricultor, que enfartou em março desse ano.
  No quarto se recuperando de um coágulo no pulmão, o aposentado Lindo Vechi, 83, de Colorado (85 km ao norte de Maringá), brincou que já ‘‘virou freguês’’ do Hospital do Coração. Teve um primeiro infarto há cinco anos, quando colocou marca-passo. Este ano, entre fevereiro e março, foram mais dois e ele acabou ficando internado por 15 dias. Olhando ao jogo na tevê, disse que o time de Parreira, ‘‘se jogar o que sabe, ganha fácil’’, mas advertiu que ‘‘se quiser ser campeão, precisa melhorar muito’’.
  Seu vizinho de leito, Rubens Rossini, 71, que saiu da UTI no sábado, após receber marca-passo, estava feliz por poder assistir à tevê. ‘‘Enfartado sim, sem futebol, não’’, afirmou. (J.K.)

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