Medalhistas criam comissão para "moralizar" o judô
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segunda-feira, 18 de outubro de 1999
Por Valéria Zukeran 
São Paulo, 19 (AE) - Seis dos sete judocas que conquistaram medalhas para o Brasil em Jogos Olímpicos reuniram-se hoje para anunciar a criação da Comissão pela Moralização do Judô. A principal meta do movimento é mobilizar as autoridades para que procurem solucionar os problemas que os atletas têm enfrentado com o presidente da Confederação Brasileira de Judô (CBJ), Joaquim Mamede Júnior.
Fazem parte da comissão os judocas Walter Carmona (bronze em 1984), Aurélio Miguel (ouro em 88 e bronze em 92 e em 96), Henrique Guimarães (bronze em 96), Rogério Sampaio (ouro em 92), Luiz Onmura (bronze em 84) e Douglas Vieira (prata em 1984). O movimento também tem o apoio de dirigentes, como o diretor de Judô da Associação Desportiva São Caetano, Walter Figueira, e atletas como Edinanci Silva e Danielle Zangrando. O único que não compareceu foi Chiaki Ishii (bronze em 72), que estava viajando.
O grupo, apoiado pelo deputado estadual Marquinho Tortorello (PPS), lançou um manifesto que será encaminhado ao Ministério do Esporte e do Turismo, o Instituto Nacional do Desenvolvimento do Desporto (Indesp), Conselho de Desenvolvimento do Desporto (CDDB) e ao Comitê Olímpico Brasileiro (COB). O presidente da Câmara dos Deputados, Michel Temer (PMDB), e o presidente do Senado, Antônio Carlos Magalhães (PFL) também receberão o documento. O senador Roberto Freire (PPS) recebeu o manifesto hoje, prometendo analisá-lo.
RECUSA - Os judocas recusam-se a participar da reunião de conciliação proposta pelo presidente do COB, Carlos Arthur Nuzman, e pedem para que sejam ouvidos pelo dirigente. No manifesto, afirmam que "não é mais possível conviver com estruturas anacrônicas de direção, formas esclerosadas na gestão desportiva, improvisação, autoritarismo, nepotismo, obscurantismo na prestação de contas de vultosas quantias drenadas do bolso dos atletas, seus patrocinadores ou dos cofres públicos". Nuzman vai estudar a proposta de encontro e garantiu que as viagens com o objetivo de preparação para a Olimpíada de Sydney serão bancadas pelo COB.
Entre os problemas enfrentados pelos atletas, os mais recentes foram o impasse sobre a participação brasileira no Campeonato Mundial, resolvido apenas três dias antes do embarque para a Inglaterra, e a briga judicial entre Aurélio Miguel e a CBJ. O judoca acionou a Justiça pelo direito de disputar a final da seletiva para o Mundial.
Também em 99, Edinanci Silva esteve envolvida em dois episódios. No primeiro, foi cortada e depois reintegrada à equipe para o Pan-Americano de Winnipeg. O segundo envolveu declarações de Mamede Júnior sobre sua vida pessoal.
Carmona, que está processando Mamede Júnior por calúnia e difamação, lembra que os problemas entre os atletas e a família Mamede são antigos. "Houve um movimento em 79 e outro em 89", diz. "No segundo, foi feita uma conciliação, mas as coisas não melhoraram."
Segundo Carmona, a Comissão foi criada a partir dos contatos constantes entre os judocas medalhistas. Mesmo os que deixaram de competir ainda trabalham no esporte como professores ou comandando academias. "O que queremos é que nossos ídolos sejam respeitados, como a gente vê acontecer na França, por exemplo", diz Aurélio. Segundo ele, enquanto esportes como o atletismo e a natação têm procurado modernizar-se e valorizar seus talentos, no judô acontece o oposto.
Walter Figueira lembra o caso da ida de Aurélio para o Flamengo. A CBJ cobrou R$ 60 mil pela transferência do atleta. "Há uma inversão de valores, pois os nossos atletas, ao invés de serem presenteados por suas conquistas, são punidos."
Henrique Guimarães dá um exemplo dos problemas enfrentados. "Soube apenas hoje que a seletiva para o Campeonato Pan-Americano, última chance da minha categoria garantir vaga em Sydney, será no sábado."


