São Paulo - Três meses de salários atrasados. É nessa condição que Diogo Silva, campeão pan-americano de taekwondo, disputará o Pré-Olímpico das Américas, em Cali (Colômbia), que distribuirá três vagas por categoria para a Olimpíada de Pequim, em 2008. A competição começa hoje e prossegue até
domingo.
  ‘‘Minha situação com a Confederação Brasileira de Taekwondo (CBTKD) continua a mesma. Não recebo salário, assim como outros atletas e técnicos. Nem a medalha do Pan está me salvando’’, desabafa Diogo. O que contraria as declarações do também lutador Carlos Izidoro, que afirmou que o dinheiro da confederação, que deveria chegar a todos os atletas, estaria sendo repassado aos quatro medalhistas do Pan. Diogo nega.
  No comando da entidade desde 1987, mestre Kim diz não ter nada a ver com a situação de Diogo. ‘‘O problema é do setor financeiro’’, afirma. A confederação, segundo o dirigente, não está recebendo dinheiro do Comitê Olímpico Brasileiro porque ‘‘falta um documento. Consultado, o COB informou que a Confederação está ‘‘impossibilitada judicialmente de receber recursos’’. Mas, para não prejudicar a preparação para os Jogos de Pequim, está repassando ‘‘diretamente os recursos da Lei Agnelo/Piva à comissão técnica e aos atletas’’.
  Para Diogo, a situação só mudará se houver, antes, mudança na diretoria da confederação. ‘‘Tem de haver eleição, trocar a administração. Mestre Kim está no poder há muito tempo’’, critica o atleta. No Pan do Rio, o atleta aproveitou a chance de falar em rede nacional para escancarar os problemas pela TV. Não achava justo ter de se virar com salário de apenas R$ 600 por mês.
  As condições só melhoraram graças à imagem de herói criada no Pan, que lhe rendeu convites para palestras em escolas, universidades, empresas e até para desfilar para grifes famosas em semanas de moda. ‘‘É isso que tem me ajudado nos rendimentos.’’
  Negro, de família humilde, o atleta de São Sebastião – que agora, mora em Londrina – teve de superar muitos obstáculos para chegar à elite do esporte. Deixou a casa da mãe, Telma, manicure, em Campinas, para morar de favor, por um tempo, no Paraná e treinar ao lado de Natália Falavigna, campeã mundial em 2005.
  Mesmo sem receber salário da confederação, Diogo diz que teve um ano ‘‘fantástico’’. ‘‘Hoje, dou autógrafos, sou reconhecido na rua. Fico feliz por ser referência para as pessoas.’’
  Sem patrocínio individual, o atleta afirma que recebeu propostas, mas nenhuma se concretizou. ‘‘Minha expectativa é que isso aconteça em 2008.’’ Em razão da atividade paralela ao taekwondo, Diogo treinou pouco este semestre. ‘‘Os treinos diminuíram. Mas estou tentando me adequar. Vai dar tudo certo no Pré-Olímpico.’’

Problema antigo
  No começo de 2007, ano de Jogos Pan-Americanos no Rio, Diogo Silva teve de desembolsar R$ 5 mil para treinar e competir no exterior. O dinheiro, ele havia guardado para comprar um carro para a mãe. Como estava fora do País, não teve renovada a bolsa-atleta e, para sobreviver, contou apenas com o salário pago – com atraso de dois meses – pela Confederação Brasileira de Taekwondo: R$ 600 mensais.
  O problema com a Confederação é antigo. Desde a Olimpíada de Atenas, em 2004, Diogo dá a cara para bater e exige melhorias para ele e outros atletas. Mas é ignorado.
  Diogo, Natália, Márcio Wenceslau e Débora Nunes terão que superar todos os problemas da modalidade para conquistar uma vaga na Olímpiada de Pequim. O Pré-Olímpico de Cali é a última oportunidade, já que eles não confirmaram a vaga no Pré-Olímpico Mundial, realizado em Manchester, na Inglaterra.

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