Zurique - A administração de Ricardo Teixeira e de José Maria Marin teriam criado um sistema de corrupção que passou a exigir que empresas com interesses na seleção ou na CBF depositassem milhões em suas contas fora do País. Por enquanto, apenas Marin foi preso. Mas tanto os suíços como os norte-americanos garantem que o processo não acabou.
Investigações revelaram que José Maria Marin fraudou a CBF e a Fifa para se enriquecer às custas do futebol brasileiro. Nos documentos do indiciamento, o ataque é claro. Marin "intencionalmente conspirou para criar um esquema para fraudar a Fifa e a CBF". Ele obteve "dinheiro e propriedades por meio de notas falsas e promessas", afetando o que deveria ser o lucro da CBF e o desenvolvimento do futebol no País.
Segundo as investigações conduzidas pela Justiça norte-americana, o ex-presidente Marin exigia pagamentos. Em um deles, a CBF ficaria com uma propina de US$ 20 milhões para contratos comerciais envolvendo a venda de direitos para a Copa América de 2019 no Brasil. Os contratos oficiais estavam avaliados em US$ 80 milhões.
Marin, apontam as investigações, ainda cobrou mais R$ 4 milhões por ano da Traffic e de uma outra empresa para a realização da Copa no Brasil enquanto foi presidente da CBF. Segundo a investigação norte-americana, a CBF já cobrava propinas de parceiros para que tivessem o direito de transmissão dos eventos antes mesmo de Marin. O cartola que está preso na Suíça aceitou dividir os R$ 4 milhões anuais com outros dois dirigentes, não mencionados.
Parte do pagamento foi feito por meio de contas no banco Itaú, de Nova Iorque, para outra no HSBC, de Londres. Em uma delas, o dinheiro ia para uma conta de uma empresa que fabrica iates de luxo.
Em abril de 2014, Marin usou uma coletiva de imprensa nos Estados Unidos para, nos bastidores, falar da Copa América para negociar o fim de pagamentos a Ricardo Teixeira. No encontro, segundo a Justiça norte-americana, Marin declarou: "Chegou a hora de vir em nossa direção. Verdade ou não?". O interlocutor, não identificado, apenas respondeu: "Claro, claro. O dinheiro teria de vir para o senhor". Marin respondeu: "Está certo".
Marin ainda teria recebido em 2013 mais US$ 3 milhões em propinas por contratos da Copa América, pagos pela empresa Datisa, dona dos direitos da Copa América de 2015, 2016, 2019 e 2023.

TEIXEIRA

As propinas não começaram com Marin. Desde 1990 e até 2009, a investigação norte-americana indica que um "alto funcionário da Fifa e da CBF solicitou receber propinas em conexão com o contrato de venda dos direitos da Copa do Brasil". O nome de Teixeira não é citado. Mas o período coincide com sua gestão e com o fato de que ele era ao mesmo tempo "alto funcionário da Fifa e da CBF".
Outra constatação da investigação mostra que a Nike pagou mais US$ 40 milhões em uma conta na Suíça para fechar um contrato com a CBF para patrocinar a seleção brasileira. Segundo o levantamento, o acordo avaliado em US$ 140 milhões rendeu pagamentos paralelos e depósitos no paraíso fiscal alpino. "A Nike acredita fortemente em ética e fair-play tanto nos negócios como no esporte e repudia toda e qualquer forma de manipulação ou propina", disse a empresa em nota oficial.
As duas empresas que teriam recebido o dinheiro seriam a Traffic Sports International Inc. e a Traffic Sports USA Inc., sediadas na Flórida (Estados Unidos). Ambas são citadas pela Justiça norte-americana. Os suíços indicaram que contas foram bloqueadas e US$ 12 milhões teriam ido exclusivamente a Teixeira. (A.E.)

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