Zurique - José Maria Marin, o ex-presidente da CBF preso em Zurique há cinco meses, cede e aceita ser extraditado para os Estados Unidos. O Departamento de Justiça da Suíça informou ontem que o brasileiro fechou um acordo para simplificar o processo, antes mesmo de uma decisão final. Ele pretende permanecer em prisão domiciliar em Nova York, com uma fiança avaliada em R$ 40 milhões.
A Agência Estado revelou a notícia em primeira mão e, no mês passado, já havia publicado com exclusividade que um acordo entre Marin e a Justiça norte-americana estava sendo fechado. Com 83 anos, o ex-cartola pedia para "mudar de ambiente" e, à medida que as demais extradições no caso da Fifa eram aprovadas, ficava claro aos advogados que Marin teria o mesmo destino.
A decisão é também uma má notícia para Marco Polo del Nero, presidente da CBF, e que também está sendo investigado pelo FBI. O dirigente não sai há quatro meses do Brasil, temendo ser preso. Advogados consideravam que Del Nero estava aguardando uma sinalização no caso de Marin para decidir como lidaria com o cerco que se fecha contra ele.
Segundo o Departamento de Justiça da Suíça, Marin "aceitou e compartilhou" propinas com outros dirigentes relativos a contratos comerciais na Copa América e na Copa do Brasil. A reportagem apurou que um desses nomes sob suspeita é o de Del Nero. "Seus atos afetaram financeiramente a CBF, assim como as duas associações continentais", disse o comunicado.
A reportagem apurou que a Justiça norte-americana já sabe que, quando Marin declarou ao empresário J.Hawilla que parte de um dinheiro de propina deveria ir a ele, quem o acompanhava era Del Nero. Instantes antes da conversa, gravada pelo executivo e entregue à Justiça dos Estados Unidos, o atual presidente da CBF alertou a Marin a não falar com Hawilla, apontando que ele estava sendo investigado nos EUA. Mas não adiantou. "Pode deixar", disse Marin a Del Nero, indo na direção de Hawilla e pedindo a propina. Del Nero permaneceu em silêncio.
Segundo Berna, Marin ainda é "suspeito de ter aceito e compartilhado com outros responsáveis o suborno em relação com os direitos de marketing para a Copa América de 2015, 2016, 2019 e 2023". Pelo inquérito americano, uma tabela de preços de propinas foi montado pelas empresas que pagaram o suborno para ficar com o contrato. Marin teria recebido US$ 3 milhões na condição de presidente da CBF.

DESGASTE
Marin e outros seis cartolas foram detidos no dia 27 de maio, em Zurique, a pedido da Justiça norte-americana. Em um primeiro momento, o brasileiro contestou a extradição e um processo foi aberto. Na última terça-feira, porém, uma audiência na Justiça em Zurique ouviu de Marin o pedido para que o caso fosse arquivado e que ele seguisse para os Estados Unidos.
A decisão foi tomada depois que ficou claro que a Suíça extraditaria todos os presos. Os outros seis casos tiveram a extradição concedida. Um recurso por parte de Marin o obrigaria a ficar preso por pelo menos mais cinco meses.
Ele já vinha mostrando sinais de fraqueza e seu estado mental preocupava os mais próximos. Sua família não o visitava, por recomendação dos advogados para que não fossem questionados. Amigos passaram a mandar perguntas sobre sua infância para saber como ele reagia às respostas e o cartola deixou a barba crescer. Seus advogados ainda montaram uma estratégia de visitá-lo três vezes por semana e, sem falar inglês ou alemão, o brasileiro passou a ficar cada vez mais sozinho.
Agora, o brasileiro promete "colaborar" com a Justiça norte-americana, ainda que o objetivo dos advogados seja o de "provar sua inocência" durante o julgamento. Dos sete prisioneiros, Marin é o segundo a fechar o acordo. O outro foi Jeff Webb, que pagou US$ 10 milhões por uma fiança e entregou carros, relógios e até a aliança de diamantes de sua esposa.
Já o brasileiro tem um apartamento em Nova Iorque e negocia uma fiança milionária que o permitirá ficar em prisão domiciliar enquanto o julgamento ocorrer. Pelo acordo, seu imóvel seria confiscado pelos norte-americanos, além de exigir um pagamento extra de mais US$ 7 milhões, o que resultaria em quase US$ 10 milhões.
Fontes próximas ao caso, porém, alertam que a família de Marin não estaria disposta a arcar sozinha com a conta e quer que Del Nero contribua.
Nos Estados Unidos, porém, seu julgamento pode levar meses, enquanto os norte-americanos também trabalham para que o brasileiro concorde em ajudar nas investigações. Por enquanto, Marin garante aos advogados que não vai fechar uma delação premiada. Mas, à reportagem, fontes em Nova York insistiram que o assunto voltará a ser colocado sobre a mesa quando Marin desembarcar.
A transferência deve ocorrer entre esta sexta e segunda-feira. O ex-presidente da CBF era o último dos sete dirigentes a ser examinado e, com a decisão, a Suíça acata a todos os pedidos de extradição dos Estados Unidos. O uruguaio Eugenio Figueredo e o venezuelano Rafael Esquiviel, porém, já entraram com recursos.

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