Marcos Gouvea
Um ditador, um voto
A reação do presidente da Fifa, João Havelange, ao anteprojeto de reformulação do futebol brasileiro, apresentado por Pelé esta semana, é absurda. O anteprojeto ainda não é conhecido na íntegra. Deve ser enviado ao Congresso em 15 dias. Mas Havelange já radicalizou: Se for aprovado, o Brasil fica fora do Mundial da França.
Entre outros pontos, o anteprojeto prevê o fim do passe dois anos depois da aprovação da lei e a transformação dos clubes em empresas. As propostas de mudança passam pela perda de poder da Confederação Brasileira de Futebol, pela criação de ligas de árbitros independentes e desvincula a justiça desportiva da CBF.
O ponto mais polêmico da proposta é o fato de os dirigentes terem que responder civil e criminalmente pela administração de seus clubes. Assim, os deslizes e equívocos praticados à frente das associações serão passíveis de apreciação pela justiça comum, com os bens pessoais podendo ser bloqueados judicialmente para, se necessário, ressarcirem os clubes dos prejuízos causados. Parece que é aí que o bicho está pegando.
A CBF, segundo o anteprojeto, terá seu poder esvaziado cabendo-lhe apenas a função de organizar competições nacionais e coordenar a convocação e as partidas da seleção. É compreensível, portanto, a reação de Havelange e de seu genro Ricardo Teixeira, presidente da CBF. E, em efeito cascata, presidentes de federações e de clubes, que formam uma cadeia de troca de favores e votos.
O debate mal começou, a opinião pública ainda não está suficientemente informada sobre a proposta do ministro dos Esportes, e o todo-poderoso da Fifa ameaça tirar o país campeão do mundo do torneio de 98. A arrogância de Jean-Marie Faustin Godefrois Du Havelange é estarrecedora. Ele ameaça o Congresso brasileiro: Se for aprovado, a CBF estará desfiliada da Fifa. É um cara, está claro, que não gosta de Legislativos.
O brasileiro que dirige a Fifa desde 1974 não quer saber sequer de iniciar o debate. Havelange está saindo da Fifa e já vai tarde. Não pela longevidade, mas pela nostalgia que sente daquele mundo cheio de ditaduras de duas décadas atrás. Aquele mundo parecia ser seu habitat ideal. Foi naquele mundo, na bajulação a toda sorte de ditadores, que João Havelange construiu seu poder. Ele é fruto daquela política terceiro-mundista: Um ditador, um voto. O presidente da Fifa está defasado, não consegue conviver com a democracia. Não há lugar para Havelange no mundo de hoje. Da mesma forma, a atual estrutura do futebol brasileiro é anacrônica. Está caindo de podre. Daí a urgência na aprovação da Lei Pelé.





