Maratona reúne famosos e estressados
Marcos Freitas
Janaína Tupan Frare
De Curitiba
O prefeito queria porque queria, os assessores ajudaram, a população aprovou, os atletas se interessaram e, em três anos, a prova tornou-se internacional e já é uma das mais importantes do Brasil. Em resumo, essa é a história da Maratona Ecológica de Curitiba, que terá largada hoje, às 8 horas, no Parque Barigui.
As principais ruas da capital paranaense vão deixar de lado um pouco o trânsito dos carros para dar passagem às passadas firmes dos mais de 1.200 atletas (quase 300 atletas a mais do que o ano passado) alguns, de renome internacional, estarão em busca do título; outros, anônimos, correrão para esquecer uma vida de sedentarismo e problemas de saúde.
A partir desta edição, a prova entrou para o calendário internacional de atletismo. A iniciativa partiu da Confederação Brasileira de Atletismo e da Federação Internacional, que em 1998, durante a avaliação oficial da corrida, concederam nota máxima à organização da prova.
O grupo de elite que larga primeiro, formado na maioria por atletas profissionais é composto por 90 atletas, quase o triplo do ano passado. Destes, pelo menos quatro têm grandes chances de chegar entre os primeiros colocados. O queniano David Kariuk Maina e os sul-africanos Lawrence Ntamiso e John Monyatso são os atletas internacionais favoritos ao título.
A esperança brasileira de conquistar a prova fica por conta do gaúcho Diamantino da Silveira Santos, que venceu a última edição; do goiano Adejalma José da Costa e do curitibano Ismael Pereira da Silva. Entre as mulheres, as favoritas são a campeã da prova no ano passado, Euseli de Assis Batista, a paranaense Alina Karwowski e Leone Justino da Silva.
Corrida para saúde Há pouco mais de um ano ele sofreu um infarto que quase o levou à morte. Hoje, agradece aos céus pelo susto e diz que sua vida mudou muito depois que conheceu o atletismo. Para o servidor público aposentado Gilberto da Silva, 46 anos, participar da maratona é muito mais do que um privilégio é uma graça divina. Antes eu corria para ganhar a vida; hoje corro para gozar a vida, ele define.
Esta vai ser a primeira vez que Gilberto enfrenta uma prova de atletismo. Desde que sofreu o infarto, em março de 98, teve de mudar radicalmente a vida. Fumava 40 cigarros por dia e nunca fazia exercícios, conta. No começo ele só fazia apenas algumas caminhadas; porém, achava um pouco monótono e começou a correr. Gostou e nunca mais parou. Comecei correndo oito quilômetros por dia até chegar aos 32 quilômetros e hoje me sinto preparado para conseguir vencer todo o percurso, diz.
Refeito do susto e com muito mais saúde, Silva conta que há ocasiões em que um ataque cardíaco pode fazer bem para a vida da pessoa. Segundo ele, o infarto o ajudou a repensar a vida. No mundo da corrida encontrei uma atividade salutar e, de sobra, ganhei bons amigos.
Contra o estresse O procurador de justiça Luís Celso Medeiros, 49 anos, vai participar da Maratona de Curitiba pela terceira vez. Ele começou a correr há 10 anos para fugir do estresse físico e emocional que vinha enfrentando. Estava me separando da minha esposa, preocupado com os nossos filhos, com o trabalho, nem conseguia dormir. Então, resolvi correr para liberar toda aquela tensão, explica Medeiros. Ele assume que na primeira vez ficou com o corpo um pouco dolorido, porque correu sem orientação nenhuma, mas afirma que a tensão foi embora. Depois disso, não parou mais.
Animado, vendo pessoas mais velhas participarem de corridas rústicas, ele se inscreveu na sua primeira prova. Não chegou bem colocado, mas também não desistiu. Corro para me sentir bem e não para ganhar, explica.
Agora, logo que acaba o expediente, Medeiros espera o trânsito da cidade dar uma acalmada, troca o terno e gravata por bermuda, coloca o tênis e vai correr. Ele chega a percorrer uma média de 100 quilômetros por semana. Os percursos são variados. Às vezes treina no Jardim Botânico, outras em pista e estrada e, algumas vezes, até em morro.
A corrida, para mim, é uma forma de meditação, diz ele. Às vezes pego um processo, faço um levantamento das principais questões, fecho tudo e saio para correr. Com certeza no final da corrida estou com a resposta para o meu problema.
Medeiros nunca teve a pretensão de participar de maratonas, mas corre o mundo atrás delas. Incentivado por um amigo procurador de Minas Gerais, começou a treinar percursos mais longos em 87, quando estava trabalhando na Assembléia Nacional Constituinte. Participou de sua primeira maratona e gostou. Hoje, acumula em seu currículo esportivo as principais maratonas internacionais. Em 93 e 94, participou da Maratona de Nova York, uma das mais tradicionais da história do atletismo mundial. Na primeira, havia 28 mil corredores e na segunda, mais de 32 mil. Em 96, participou da Maratona de Montreal (Canadá) e da Maratona de Boston (EUA), a mais antiga do mundo, com 103 anos.
Em 97 resolveu sair da América e conhecer a Europa. Participou da Maratona de Paris e de Londres. Em 98, estava correndo em Berlim, na prova em que o maratonista brasileiro, Ronaldo da Costa, bateu o recorde mundial. Segundo ele, esta foi a maratona internacional que conseguiu melhor classificação. Entre 28 mil participantes, de 76 países, ele chegou na 211ª posição geral, e em oitavo lugar na categoria de 45 a 49 anos.
Medeiros não promete chegar entre os primeiros na Maratona de Curitiba, pois está com problema de fadiga muscular na panturrilha. Mas, mesmo com problemas, não vai deixar de comparecer. A corrida está no meu ciclo biológico. Eu preciso dela para viver. Se duvidar, eu não largo dela nem morto, diz brincando.
Organização Quase 1.200 voluntários, praticamente o mesmo número de inscritos, estarão trabalhando para garantir o sucesso da prova. Além dos colaboradores, a infra-estrutura inclui 10 ambulâncias e dezenas de ônibus para transportar os atletas. Aproximadamente 500 homens do Exército, Polícia Militar, Batalhão de Trânsito e Detran farão a segurança da corrida.
A cada três quilômetros, haverá postos de distribuição de água para os atletas. Os postos de atendimento médico estarão localizados nos quilômetros 10 (Avenida Arthur Bernardes), 15 (Rua Westphalen esquina com Brasílio Itiberê), 22 (Rua da Cidadania do Boqueirão), 29 (Teatro Paiol) e 37 (Avenida Cândido de Abreu).
Para os motoristas que precisarem transitar de carro durante a realização da prova, a organização da maratona pede a colaboração com um pouco de paciência, avisando que os trechos não deverão ficar impedidos por mais de 15 minutos.Agora internacional, prova terá, entre os 1.200 inscritos, atletas em busca do título e pessoas comuns em busca de saúde
DivulgaçãoKraw PenasPERNAS PARA QUE TE QUEROÀ esquerda, o procurador de justiça Luís Medeiros; à direita, o aposentado Gilberto da Silva: suor nas ruas para combater o estresse e o sedentarismo





