Maratona corintiana transforma vida da família dos atletas
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sexta-feira, 02 de abril de 1999
Por Emerson Couto 
São Paulo, 03 (AE)- Quarta-feira, dia 31, pouco tempo depois do jogo contra a Internacional, em Limeira e horas antes do confronto contra o Treze-PB, o goleiro Nei, do Corinthians, juntamente com a mulher, Lucila, aproveitava para brincar com o filho, Rafael, de oito meses, no gramado do Parque São Jorge. Dois dias depois, na sexta-feira, foi a vez de Mirandinha brincar com a filha, Lorrainny, de 2 anos, no mesmo campo. "Em uma bateria de jogos, é preciso aproveitar qualquer tempo livre para ficar com a família", explica o goleiro.
Para um atleta profissional, uma maratona de jogos não significa apenas um desgaste físico. "O emocional é pior que tem", revela Mirandinha. São dias seguidos de concentração em hotéis, viagens longas, horas de espera em aeroportos, saudade de familiares e, até mesmo, abstinência sexual. O Corinthains, que disputa três competições simultaneamente - Campeonato Paulista, Copa do Brasil e Taça Libertadores da América -, completa, neste domingo, contra a Portuguesa, no Morumbi, 10 jogos nos últmos 22 dias, uma média de uma partida a cada 53 horas.
A jornada começou com um confronto com o São Paulo, um domingo, dia 14, no Morumbi. De lá para cá, a equipe jogou três partidas por semana. Os outros oito jogos foram três pela Liberdadoes - Palmeiras (dia 17), Cerro Porteño (dia 24) e Olimpia (26) -, três pelo Paulista - Rio Branco (dia 21), Palmeiras (dia 28) e Internacional (dia 30) -, e outros dois pela Copa do Brasil, ambos contra o Treze-PB, dias 19 de março e 1.º de abril.
A maratona teve viagens incômodas, como os 120 quilômetros de ônibus entre João Pessoa e Campina Grande, sob o calor escaldante do interior paraibano. "As viagens são o que matam a gente", afirmou Mirandinha.
Ele lembra que a viagem de São Paulo para João Pessoa, por exemplo, teve atraso de 1h40 no vôo e muita espera no momento da conexão. Em uma semana de hospedagem em Assunção, a delegação viveu a tensão causada pelo assassinato do vice-presidente paraguaio, Luis María Argaña, e dos combates, nas ruas, entre grupos políticos rivais. "A cada cinco minutos, ligávamos a TV para saber como estava a situação", conta Carlos Nujud, diretor de Futebol. "Tínhamos a preocupação de passar um clima de tranquilidade para não alarmar os familiares dos jogadores que ficaram no Brasil."
Distantes da famíla, o importante é não ter pena do bolso. Na semana em Assunção, o goleiro Nei, com muita saudade do filho, Rafael, gastou US$ 300 apenas em ligações telefônicas. "Ele ficava no telefone, queria ouvir a voz do pai", lembra Nei, o pai-coruja. Mirandinha também não largou o tefelone, mas não contabilizou gastos. "Pagava tudo no cartão de crédito." Os familiares procuram entender o trabalho. "As concentrações, as viagens fazem parte", conforma-se Lucila, mulher de Nei. Ela
no entanto, teve de fazer uma concessão. Apesar da babá, deixou de lado a profissão de médica para poder ficar mais perto do filho. "Mas quero voltar a trabalhar em breve", projeta. A opção de Lucila dá segurança a Nei. "Moro próximo a um hospital
tenho um bom plano de saúde e minha esposa é médica", conta Nei.
"O bebê está sempre bem assessorado neste sentido." Lucila é uma das várias esposas de jogador presentes nos treinos corintianos. Na sexta-feira, pouco antes do trabalho, o meia Ricardinho foi flagrado dentro de seu carro, no estacionamento do Parque São Jorge, namorando a mulher, Juliana. Estão há um ano casados. "Ela está sempre comigo nas horas vagas", justifica Ricardinho, em meio a um sorriso envergonhado. "A família é tudo para nós, o alicerce da vida."
Solteiro, o baiano Vampeta, sempre em viagens para a terra natal nas folgas, lamentava não poder acompanhar o fim das obras de reconstrução do cinema, por ele financiadas, na cidade de Nazaré. "Com tantos jogos e concentrações, há muito tempo não consigo ir para lá", disse, em tom preocupado. "Preciso falar com o homem (o técnico Evaristo de Macedo) para ver se ele me libera." O mesmo Vampeta comemorou no dia 29, uma segunda-feira, a liberação do jogo contra a Internacional de Limeira, que aconteceria no dia seguinte. "Vou fazer muito sexo", comentou, alegre, ao ser perguntado sobre como aproveitaria a inesperada folga.


