Mais que uma corrida
PUBLICAÇÃO
sábado, 27 de fevereiro de 2016
Rafael Souza<br>Reportagem Local 
Definitivamente, a "El Cruce de Los Andes" não é uma prova como as outras. Como diz o próprio slogan, é uma prova diferente. Imagine atravessar a Cordilheira dos Andes, do Chile à Argentina, em um percurso de 100 quilômetros que deve ser feito em três dias. Isso tudo encarando altitude, temperaturas que podem variar entre -10º e 40º e ainda dormindo em acampamentos. Não, não dá para imaginar.
Só mesmo quem encarou um desafio deste tamanho é que pode contar em detalhes como é viver uma experiência tão intensa. São poucos atletas no mundo. E três londrinenses acabam de entrar para esse seleto grupo. Rodrigo Bussadori, Feis Feres Neto e Silvio Prado participaram da edição deste ano, realizada entre os dias 10 e 12 deste mês. Estreantes, eles completaram a ultramaratona dentro do tempo exigido pela organização na categoria individual avançado. E não há outra palavra que resuma melhor a trajetória do trio do que superação.
"Cada um vive de uma maneira. No meu caso, foi muita superação. Foi mais que uma prova, foi uma experiência de vida", define Rodrigo.
E não é difícil entender o porquê disso. Basta olhar o cronograma da "El Cruce de Los Andes" para entender que superar limites é quase uma obrigação. Se candidatar a participar de um desafio dessa envergadura não é tarefa das mais simples. Exige muito mais que "só querer". "É uma prova com 15 anos de história e nunca um mesmo percurso foi repetido. A organização conta que é possível construir ao menos 100 percursos diferentes no local onde é a prova", detalha Silvio.
Para se ter uma noção do tamanho do nível de dificuldade, a prova nos Andes impõe aos participantes um desnível acumulado (somatória das subidas ao longo do trajeto) de terreno é de 10,4 mil metros. Em uma maratona tradicional disputada no asfalto, esse número não passa de 600 metros. "Essa é a grande dificuldade, além da altitude de dois mil metros no ponto mais alto dos Andes", elege Feis.
E os obstáculos não param por aí. A noite de descanso também é limitada. Depois de cumprir o percurso do dia, ainda é preciso seguir para o acampamento e montar a barraca para dormir. "Não é como uma maratona, que tem hotel", comparou Rodrigo. E o banho? "No primeiro dia ainda tinha um lago onde conseguimos tomar banho, gelado, mas tomamos. Mas no segundo, ficamos sem tomar banho. E ainda tem que dar tempo de preparar o dia seguinte. Ou seja, o acampamento acaba sendo parte da prova", ressalta o corredor.
Com tantas dificuldades, era extremamente importante se atentar à preparação, que incluiu um planejamento repleto de detalhes. O trio começou a treinar um ano antes da prova. E o trabalho foi muito além da parte física. "É um conjunto de fatores, não adianta nada ter físico bom e cabeça fraca. Não dá para fazer uma parte só específica. Trabalhamos muito a parte mental e a simulação de desnível de terreno", explica Silvio.
"Para mim, esse foi o grande desafio, conciliar a rotina de treinos com a família e trabalho. Para participar de uma prova dessa, é preciso treinar de cinco a seis dias por semana. E foram muitas as vezes que saí para treinar às quatro, cinco da manhã. Não foi fácil", relembra Rodrigo.
Eles sofreram, se superaram, mas também trouxeram de lá paisagens que vão guardar para sempre em suas memórias. "Até dentro do lago é diferente, até no topo dos Andes o visual é fantástico. Vale todo o sacrifício", garante Feis.
"Quem vai para essa prova, volta diferente. Foi o tempo todo aprendizado. Na hora que chega ao final a gente nem sabe de onde veio a força. Até minha fé aumentou", destaca Silvio.


