Mais de 50 mil ingressos esgotaram-se em poucas horas
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domingo, 28 de março de 1999
Por Hélder Guimarães Especial para a Agência Estado 
Tóquio, 29 (AE) - Os ingressos para a partida de quarta-feira, entre Brasil e Japão, estão esgotados há mais de um mês. Com o nome oficial de Kirin Beverage Soccer 99, o jogo é tão aguardado pelos japoneses que é feita até uma contagem regressiva diária, nos telejornais da TBS (Tokyo Broadcasting System), emissora que detém os direitos de transmissão ao vivo para o país. No dia 27 de fevereiro, poucas horas bastaram para que todas as mais de 50 mil entradas fossem vendidas, por telefone. O sistema de reservas on-line evitou a formação de filas em postos autorizados da capital japonesa.
A grande procura pelos ingressos confirmou a expectativa pelo jogo, marcado para as 7 horas (horário de Brasília) de quarta-feira (19 horas, no Japão), no Estádio Nacional de Tóquio - Kokuritsu, em japonês. Marcado para o ano passado e adiado pouco depois da Copa do Mundo da França, o amistoso é tido pela imprensa do país como uma boa chance para que o Japão repita a vitória histórica sobre a seleção brasileira, na Olimpíada de Atlanta, em 1996.
O jogo ocorre pouco antes de os japoneses participarem pela primeira vez - como convidados - da Copa América, em junho, no Paraguai. O convite ainda é muito comemorado no Japão, por oferecer à equipe a oportunidade de obter maior experiência internacional, depois de ter conseguido disputar, no ano passado
sua primeira Copa do Mundo e estar-se preparando, junto com a Coréia do Sul, para organizar o primeiro Mundial do século 21 - e o primeiro no continente asiático -, em 2002.
Os dirigentes do esporte japonês estão apostando suas fichas, com muita esperança, em bons resultados de sua seleção, para tentar recuperar a popularidade do futebol no país. Além do fraco desempenho do time na Copa da França - eliminado na primeira fase, após três derrotas, para Argentina, Jamaica e Croácia -, o futebol não passa por um bom momento no país.
Crise - Não bastasse uma recente reviravolta no comando da equipe, com a contratação do treinador francês Philippe Troussier, ex-técnico da áfrica do Sul, de 44 anos, o mais importante campeonato do Japão vive uma crise sem precedentes. Entrando agora em seu sétimo ano, a J-League - Liga Profissional do Japão - está amargando as consequências da profunda crise econômica enfrentada pelos japoneses.
Isso vem tendo reflexos desastrosos no comparecimento do público aos estádios e na fuga de grandes patrocinadores dos clubes, sem falar no interesse cada vez menor das emissoras de TV em transmitir as partidas do campeonato. Uma delas, a TV Tokyo, decidiu até mesmo tirar do ar, a partir de abril, dois programas dedicados ao futebol.
Lançada em 1993, com muita festa e uma pesada estratégia de marketing, a J-League prometia ser a redenção do futebol japonês
que nunca havia participado de uma Copa do Mundo. Ao contrário, os jogadores ligados aos clubes das grandes empresas só tinham conhecimento de um breve momento de glória do futebol do país em competições internacionais, quando o Japão conquistou a medalha de bronze da modalidade, na Olimpíada do México, em 1968.
Ídolos - Com o objetivo de fortalecer o esporte no Japão, a criação da primeira Liga Profissional de Futebol acabou atraindo um enorme público aos estádios, chegando a uma média superior a 20 mil pessoas por partida. O sucesso da J-League também se traduziu num fabuloso mercado para os jogadores e técnicos brasileiros.
Num momento de pico, os 12 clubes da Primeira Divisão chegaram a ter mais de 45 jogadores do Brasil, como Dunga, Jorginho, Zinho, Evair e César Sampaio, entre outros, além de técnicos como Valdir Espinosa, Nicanor de Carvalho e Levir Culpi.
A euforia pelo futebol atingiu proporções impensáveis, como uma divulgação maciça do Brasil entre os japoneses. Interessados no país de origem dos ídolos de seus clubes, os torcedores japoneses começaram a lotar churrascarias, inauguradas em ritmo frenético nas grandes cidades, e até a aprender português, para tentar se comunicar com aqueles jogadores. A fase era de expansão e logo a J-League passou a contar com 16 clubes, disputando o Campeonato Japonês em duas fases.
Nas primeiras rodadas da temporada de 1999, contudo, não passam de 20 os jogadores brasileiros no país. O Yokohama Flugels, time que chegou a "estourar", com o trio César Sampaio, Zinho e Evair (todos hoje de volta ao Palmeiras), fechou as portas, depois que seu principal patrocinador, a Construtora Sato Kogyo, retirou sua participação no clube, em consequência da crise econômica.
Nos estádios, a recessão não demorou a chegar ao bolso do torcedor, também desestimulado pela queda sensível do nível técnico das partidas, depois da saída numerosa de jogadores e técnicos estrangeiros da maioria dos clubes. Com média pouco superior a 9 mil pagantes por jogo, atualmente, a esperança de uma recuperação do futebol no Japão está cada vez mais nos pés dos astros da seleção, como Nakata - o único japonês a fazer sucesso na Série A do Campeonato Italiano, pela equipe do Perugia.


