São Paulo - Rubén Magnano já tem na cabeça a convocação mais importante dos últimos 16 anos do basquete masculino, aquela que marca o retorno do País à Olimpíada. O técnico é claro ao dizer que, da lista que será apresentada hoje, ''nem sua esposa sabe''. Mas na longa conversa com a reportagem, o argentino de respostas sempre bem pensadas, sugere que chamará o que o Brasil tem de melhor.
Primeiro porque o seu trabalho não é deixar a opinião pública satisfeita. Segundo, porque o Brasil ''precisa de resultados para ontem, não para amanhã''. Mas desde que seus princípios de igualdade e comprometimento sejam respeitados.
Às vésperas da convocação, tudo já está pronto?
Sempre que temos tempo para fazer uma modificação, se pode fazer, mas tenho praticamente tudo resolvido. Estou tranquilo, mas falo que agora, depois da naturalização do Larry, tenho um feliz problema, o mesmo que espero ter daqui há alguns anos, que é a possibilidade de escolha em todas as posições.
O sr. está preocupado com a condição física dos jogadores quando eles se apresentarem? O Varejão, por exemplo, nem conseguiu jogar este ano.
Sobretudo pela experiência que vivi antes do Mundial da Turquia (em 2010). Sofremos muito com as lesões do Varejão, do Tiago Splitter e o corte do Nenê. Hoje me preocupa o tempo de recuperação do Varejão, que é um jogador muito importante. Ele praticamente não jogou mas tem muita, mas muita vontade de jogar, e já está trabalhando duro. Outra adversidade que teremos é a carga física e emocional dos jogadores que estarão em finais com suas equipes. Precisamos que eles cheguem no fim de julho da mesma maneira que estavam nos playoffs de suas equipes, ou seja, no 100%. É meio como um jogo de xadrez que vamos ter que fazer nesta temporada.
O sr. acha que já conseguiu fazer com que os jogadores voltassem a valorizar a seleção?
(O técnico faz uma longa pausa antes de responder) Acho que vamos por um caminho. Não se fala ''eu quero a seleção'', depois fico bravo e vou embora. Vestir a camisa nacional é um aprendizado em todos os aspectos. Minha ideia como técnico é a de passar essa mensagem sempre. Por isso falo que faço avaliações técnicas, táticas, físicas e de comprometimento. Quando digo que gosto de falar cara a cara com o jogador, é porque é nessa hora que eu percebo a vontade dele. Mas devo pensar também que é preciso resultados para ontem, não para amanhã. Sei perfeitamente que o basquete do Brasil vai devagar, mas vai melhorando, por uma série de variáveis, mas que ainda precisa de resultados.
E, nesse trabalho, todos os jogadores são colocados no mesmo grau de importância...
Tenho um valor, que sempre falo na conversa com outros treinadores e até com a imprensa, que se chama igualdade. Igualdade é algo que não se negocia. Igualdade de comprometimento, de trabalho, de respeito, de solidariedade, de tudo. De tudo. Para você isso, para ele o mesmo, e, para mim, o condutor, primeiro de tudo, o mesmo.
O debate foi muito grande após o Pré-Olímpico sobre a convocação ou não de jogadores que não estiveram em Mar del Plata...
(O técnico interrompe). Não, eu não vi quase nada disso... (ironiza, bem-humorado).
Diante desse debate de quem deve ir ou não para a Olimpíada, como fica quem decide?
Eu já disse: tenho a minha convocação na cabeça. Muita coisa aconteceu depois da classificação. Essa foi a maior de todas, o debate de que se deve ou não chamar esse ou aquele jogador. Faz parte. Ao menos, é muito importante isso ter acontecido por se estar falando de basquete, o que não é pouca coisa. Isso já me deixa contente, mas não afeta minha decisão, em absoluto. Não atuo para que você fique feliz. Faço as coisas para ir em busca de um objetivo, das coisas que eu acredito. Seria muito ruim da minha parte, muito egoísta, ficaria até mentiroso, assumir opiniões do que estou ouvindo ou de uma pesquisa que eu não sei quem controla. Eu deixaria de ser Rubén Magnano. Tenho muito claro que as decisões, acertadas ou não, vão ser para tentar o melhor para o basquete do Brasil.
O esforço da CBB para que a naturalização do Larry saísse a tempo da Olimpíada obriga o sr. a convocá-lo?
Obriga? Sim, porque houve um esforço. Não, em absoluto. O Larry vai ter que trabalhar e vai ser avaliado como todos. Estamos diante de um bom jogador, mas há outros jogadores. Acho que é o mesmo que você me dizer que pagaram um seguro de não sei quanto por um cara. Isso vai me obrigar que ele fique na equipe? Claro que não. Felizmente não sofro esse tipo de pressão.
Quando o presidente Carlos Nunes fala de um torneio em São Carlos e diz que lá estarão Nenê e Leandrinho, podemos entender que eles vão ser convocados?
Primeira coisa: se o Carlinhos falou isso, acho que foi a expressão de um desejo dele, não uma comunicação. Nem minha esposa sabe quem vai ser convocado, ninguém sabe. Você vai saber os nomes quando, no dia 17, eu me sentar à frente da lista e começar a falar. E se aconteceu algo, o Carlinhos não me informou, te digo verdadeiramente.
Mas também não interessaria ao sr. receber essa informação...
Não, não, em absoluto (risos). Em toda essa polêmica, há que se ver o contexto. Eu conheço bem isso já, caminhei bastante, e meu verdadeiro problema é que os jogadores trabalhem bem, é isso que ocupa minha cabeça. O resto não me afeta.
A postura defensiva do Brasil mudou muito. Foi difícil implementar essa mudança?
Sou um treinador cujo foco maior é o aspecto defensivo. Quando eu era mais jovem, diziam que o basquete era 70% defesa e 30% ataque, ou 80% e 20%. Não, basquete é 50% e 50%. E não podemos esquecer que cada um desses 50% sejam de muita qualidade. Foi esse o foco que tive no Brasil. Felizmente, pude contar com muitos jogadores que já tiveram experiências em importantes equipes da Europa, da NBA, do basquete universitário americano. Então, não foi difícil. Foi trabalho. Essa é a ideia, e vamos continuar a melhorar isso.
É possível ir ao pódio olímpico?
Sempre é possível. No momento em que jogam cinco contra cinco, as portas estão abertas. A questão é como trabalhar para que essas possibilidades sejam ainda maiores. Essa é a questão. Mas acho que no momento da classificação, cada um já começou a sonhar com essa possibilidade.

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