São Paulo - Vanderlei Luxemburgo completa nesta temporada 25 anos de carreira de treinador de futebol. Cinco vezes campeão brasileiro, é o recordista de títulos da competição nacional. Conquistou sete vezes o Paulistão - só perde para Lula, técnico do Santos de Pelé, que levou oito taças. Agora, na sua quarta passagem pelo Palmeiras, Luxemburgo tem um desafio pela frente que ele mesmo se propõe: mudar o futebol brasileiro.

Agência Estado - Você é muito criticado por atuar como treinador e manager. Como recebe essas críticas?
Vanderlei Luxemburgo - Tudo o que fiz no futebol foram coisas boas que ficaram aí. Tomei muita porrada. Recebi e recebo as críticas com muita naturalidade. Parte da imprensa não está preparada para as mudanças no futebol. Muita gente acha bonito o Alex Ferguson ser o manager do Manchester e acha ruim eu ser um manager de um clube brasileiro. Qual é o problema? Por que eu não posso ser?

AE - É possível conciliar as duas atividades, técnico e manager?
Luxemburgo - Claro que é. Você monta uma equipe de assistentes, distribui as funções e faz o seu trabalho no campo e na gestão do futebol. O treinador que não seguir esse caminho não vai sobreviver no Brasil. A maioria dos dirigentes dos clubes não está preparada para a gestão do futebol. Esse papel é do treinador.

AE - Esse processo é irreversível?
Luxemburgo - Como é que você vai sentar com o dirigente do clube para falar do negócio de futebol se você só sabe dar treino? Não existe a história de o técnico chegar e falar: só discuto a parte técnica. Duvido. O dirigente te chama lá e pergunta quanto é que posso pagar por aquele jogador, vale a pena investir? É o treinador que tem de dizer, é ele que conhece o jogador e sabe o que poderá render. É lógico que às vezes você erra.

AE - Quantas horas você trabalha por dia ?
Luxemburgo - Bastante, umas 12, 15 horas por dia. No campo, umas duas, três horas. Passo o dia reunido com dirigentes, gestores. Se o Cipullo (vice-presidente do Palmeiras) me procura, tem de me encontrar. Não paro um minuto. Acompanho tudo, vejo jogos. Quando não tenho tempo, uma equipe minha grava os jogos. Tenho uma empresa que grava tudo o que eu quero ver...

AE - Como formar um time competitivo diante do assédio europeu?
Luxemburgo - A Lei Pelé não permite mais projetos anuais nos clubes, a realidade hoje é um projeto de seis meses. Times de seis meses. Não tem mais isso de jogador beijar escudo do clube, ter identidade com aquele clube. Hoje você não consegue mais segurar um time por um ano.

AE - Dá para reverter essa situação?
Luxemburgo - Investimento de futebol é complexo. Você não lida como uma empresa que põe um produto na prateleira e fica dez meses à venda. Futebol é mais complexo. Você recebe uma proposta e segura o jogador, de repente esse jogador sofre uma lesão e não pode ser mais vendido.

AE - A saída é a parceria com fundos de investimentos, como o caso da Traffic?

Luxemburgo - Lembram da Parmalat? A parceria com a Parmalat poderia ter dado muito mais retorno ao Palmeiras. Eu e o Brunoro fizemos um projeto naquela época. A Parmalat construiria um CT e ficaria com 70% da categoria da base. Isso foi em 93. Hoje, 15 anos depois, todos os clubes têm parceiros, 50%, 30% daqui e dali dos direitos dos jogadores. Há 15 anos tivemos essa visão, mas o Palmeiras não quis o negócio.

AE - A Lei Pelé tem de ser revista?
Luxemburgo - É preciso mudar a Lei Pelé, para proteger os garotos de 16 a 23 anos, que estão saindo do Brasil muito cedo. Minha idéia é fazer com que a CBF funcione como um cartório, registrando os jogadores a partir dos 12 anos. Isso já daria maior segurança aos clubes. O problema é que, para isso, é preciso mexer também na Lei de Proteção ao Menor.

AE - Voltando aos parceiros, por que você levou tantos jogadores do Iraty para o Santos?
Luxemburgo - Por que você não pergunta o motivo de o Corinthians ter levado meio time do Bragantino no ano passado? Não tem sacanagem no que eu faço. Nunca teve. Se o Iraty tem jogadores que acho que podem ser úteis para mim, e o presidente do Iraty (Sérgio Malucelli) é meu amigo, por que não vou contratar? Indico jogador, cabe ao presidente decidir se vai investir ou não.

AE - Cite um exemplo.
Luxemburgo - O Cléber Santana custaria US$ 1,2 milhão para a compra, mas o Marcelo Teixeira (presidente do Santos) não quis comprar, trouxe por empréstimo. Aí ele saiu por US$ 6 milhões e o Santos não ficou com nada.

AE - Você gostaria de ter reconhecimento maior?
Luxemburgo - Sou reconhecido como treinador, ganho meus títulos e consegui conquistar muitas coisas. Se ninguém falar nada, não acontece nada. Quem não faz nada é subserviente ao mercado. Ou você tenta acrescentar algo à profissão ou vai ser sempre subserviente.

AE - Você é muito criticado por negociar jogadores. Incomoda?
Luxemburgo - Quando você faz venda de jogador, acham que está levando grana, porque senta com o empresário do jogador. Na Europa, é estipulado em contrato o quanto cada treinador pode gastar. E se ele vender um jogador, esse dinheiro vira receita para novo investimento. Se tem 100 pra gastar e gasta 180, tem que vender alguém pra repor. O Arsène Wenger faz isso no Arsenal. Vendeu o Henry e já contratou outros. Não tem sacanagem, porque ele ganha muito dinheiro para fazer isso aí. Mas aqui no Brasil é tido como pilantra. Já viraram minha vida de ponta-cabeça 500 vezes e nunca provaram nada. A única coisa que eu quero é contribuir com o futebol, que é um negócio.

AE - Você é um chato do futebol?
Luxemburgo - Mais chato que o Telê não existiu. Mas chato igual a mim também são poucos.

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