LONGEVIDADE - Vovôs do futebol dão exemplo de vitalidade
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terça-feira, 16 de outubro de 2012
Thiago Mossini<br>Reportagem Local 
O atacante é lançado, domina a bola, arranca e chuta tirando do goleiro. Na comemoração, planta bananeira com uma agilidade impressionante. Em outro jogo, o atacante solta a bomba, no ângulo. O goleiro, como um gato, salta para fazer a defesa e a pose para as fotos e recebe as palmas dos torcedores. Tudo até certo ponto normal no futebol, seja ele o profissional ou mesmo o amador. No entanto, o goleador em questão já completou sete décadas de vida, enquanto o goleiro está quase lá. Eles não fazem parte do mesmo grupo de boleiros, mas em comum, têm o envelhecimento saudável, livre de doenças tradicionais da faixa etária e com muita disposição. Tudo isso graças ao histórico esportivo de vida.
Otávio Gianelli, o popular "Limpa-Trilho", tem 70 anos de muitos causos para contar. A grande maioria têm a bola como personagem principal. "Desde que me conheço por gente jogo bola", resumiu.
Ele até tentou ser profissional, mas não conseguiu. "Quando eu trabalhava no banco, tirei férias e fui jogar no São Bento de Sorocaba. Jogava de ponta esquerda e só dava (na bola) de três dedos", contou. "Fiz quatro jogos com o Luís Pereira (ex-zagueiro do Palmeiras), mas voltei para o banco porque pagava mais", prosseguiu.
"Limpa-Trilho" fez história no futebol amador de Londrina, tanto dentro como fora de campo. E é figura carimbada em peladas e campeonatos de veteranos. Com os cabelos pintados para disfarçar ainda mais a idade, ele faz o tipo "marrento". "Não sou cara de pegar e chutar para onde aponta o nariz", esnobou.
Realmente a bola esteve presente em boa parte de suas 70 primaveras. Seja jogando, seja organizando, seja assistindo, a vida dele se confunde com o futebol e isso influenciou até mesmo na escolha da esposa. "Eu era noivo, iria casar com um mulher aí. Mas daí, iria acontecer a inauguração do Estádio do Café e eu queria ir. Ela me falou: você prefere eu ou a bola?. Bom, o noivado acabou", contou.
O veterano boleiro conta que vive uma rotina bem esportiva. Além das peladas e jogos válidos por campeonatos amadores, três vezes por semana vai à academia, onde faz musculação e bicicleta. "Se não fizesse isso, acho que já havia morrido ou então estava um zumbi igual essa velharada por aí", debochou.
Um dos melhores amigos, Luís Faggião é companheiro de time de "Limpa-Trilho" e enumera as peripécias do veterano e marrento atacante. "Para nós é uma satisfação tê-lo como companheiro. Tenho 52 anos e tenho muitos problemas físicos. Tem pelo menos uns dez aqui, incluindo eu, que têm menos disposição do que ele. O velhinho é tinhoso e briguento, mas é um ícone do futebol amador de Londrina", afirmou Faggião.
Calmo e sereno
Se "Limpa-Trilho" é falastrão e briguento, Ludnei Picelli é o oposto. Administrador de empresas aposentado, ele mantém o tom calmo, sereno durante a conversa e também quando está em campo, vestindo a camisa 1 do seu time nas peladas dominicais do Retiro dos Centuriões.
Aos 66 anos, Picelli esbanja vitalidade e técnica, resquício ainda da época em que viu a chance de ser profissional bater na trave. Ele foi goleiro da base do Grêmio Maringá no início da década de 60, época áurea do Galo.
Há 30 anos, ele passa as manhãs de domingo pulando para evitar que seu time leve gols. E quem pensa que só defende as bolas fáceis, está enganado. Como um gato, ele salta em todas as bolas, sejam rasteiras ou no ângulo.
O amor pelo futebol é incondicional, tanto que fez o aposentado mergulhar de cabeça em outras modalidades. Tudo para manter-se em condições físicas de continuar como o dono da camisa 1. "Nado 1,5 mil metros três vezes por semana. Outras duas, faço alongamento e musculação. Estou tendo que manter a forma porque eu gosto muito de futebol", contou Picelli, que já operou os dois joelhos por causa de lesões causada nos gramados.
Além de mantê-lo em condições de igualdade nas peladas, a somatória dos esportes praticados reflete consideravelmente no dia a dia do veterano goleiro. "Tenho muita tendência a engordar. Se não fizesse nada, talvez estaria com uns dez quilos a mais. Sem contar a disposição que tenho para tudo, principalmente para viajar", contou. "Não sou aquele aposentado que fica em casa. Acabei de chegar de Fernando de Noronha, por exemplo, e lá tem que ter preparo", complementou.
A disposição também está presente quando a opção, ao invés da viagem, é uma esticada para uma "balada". "Às vezes, vou ao baile com a esposa e chego em casa tarde e com um ressaca. Mas mesmo assim, acordo cedo e venho para o jogo. Quando entro no campo, parece que tem uma química, que manda a indisposição embora e saio rejuvenescido", revelou. "Sinto que o futebol faz é muito bem para a minha cabeça".


