Londrinense ganha primeiro ouro do Brasil
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domingo, 15 de julho de 2007
Bruno Chazan<br> Agência Estado 
Rio - No começo de 2007, Diogo Silva tomou coragem e decidiu, juntamente com o companheiro de seleção Márcio Wenceslau, desembolsar R$ 5 mil do bolso para treinar e competir no exterior. Ele não contava com a renda do Bolsa-Atleta, não renovado justamente por estar fora do País, e sobrevivia apenas com o salário pago - com atraso de dois meses - pela Confederação Brasileira de Taekwondo: R$ 600.
Todo o sacrifício foi compensado ontem, no Pavilhão 4A do Riocentro: Diogo Silva, 25 anos, paulista de São Sebastião que treina em Londrina na Academia Madureira, foi o responsável pela primeira medalha de ouro para o Brasil no Pan. Venceu com facilidade o peruano Peter Lopez por 3 a -1, na decisão da categoria até 68 quilos. Antes da final, passou pelo guatemalteco Gabriel Sagastume e pelo dominicano Yacomo Garcia. O amigo Márcio já havia colhido bons frutos no sábado, quando ficou com a prata na categoria até 58 quilos.
''Às vezes você precisa dar um passo atrás para conquistar lá na frente. Recuperei tudo com essa medalha de ouro'', disse Diogo, que no começo do ano, com mais alguns companheiros, reuniu-se com dirigentes da Confederação para pedir reajuste salarial e melhores condições de trabalho. ''Fomos ignorados.''
Talvez fosse por isso sua expressão de amargura na entrevista coletiva, após a luta final. Era tarde de alegria, sim, mas também de forte desabafo. ''Foi uma conquista pessoal e profissional muito grande. Venho batalhando há muito tempo, mas sempre batendo na trave.'' A trave, no caso, era a sina de cair nas semifinais de torneios de grande porte.
Diogo até hoje não se conforma com o quarto lugar na Olimpíada de Atenas, em 2004. Um ano antes, já havia ficado com a medalha de bronze no Pan de Santo Domingo, com mais uma derrota no momento decisivo.
O trauma cresceu de tal forma que se transformou em ansiedade. No Mundial, em maio, na China, Diogo não passou nem da primeira luta. ''Refleti muito e cheguei à conclusão de que precisava mudar muitas coisas, mas de dentro para fora.''
Era hora de fortalecer a mente, mais do que os músculos. Diogo sabia que a pressão por um bom resultado no Rio de Janeiro seria enorme. Por isso, submeteu-se a um forte trabalho psicológico, bloqueando qualquer tipo de ansiedade. Deu certo.
As arquibancadas do Riocentro estavam lotadas. O barulho, digno de um estádio de futebol. ''Olas'' iam e voltavam e a batucada soava constante. Ainda assim, Diogo permaneceu impávido, frio como um escandinavo. Não deu a menor chance ao peruano Lopez, a surpresa do torneio.
Choro e exemplo - Ao final da luta, Diogo se conteve e apenas levantou as mãos para o alto. Só se emocionou ao abraçar os familiares, já no pódio. Enquanto isso, fora da arena, seu técnico, Fernando Madureira, se ajoelhou e deitou a cabeça na cadeira, desabando num choro de alívio. O motivo: Diogo sentia fortes dores nas costelas, devido a uma pancada que sofreu no catimbado confronto semifinal, contra Garcia. Um golpe bem encaixado no local poderia ter colocado tudo a perder. ''Mesmo se eu tivesse fraturado uma costela seguiria competindo. Seria muito injusto com o País se eu fraquejasse naquele momento.''
A declaração não soou nem um pouco demagógica, pelo contrário. Diogo soube demonstrar à perfeição que, justamente por ter vencido tantas dificuldades no caminho até o ouro, é forte candidato a virar ícone do esporte nacional. Negro, de origem pobre que chegou a morar de favor, ex-integrante do movimento Panteras Negras, carismático e com boa fluência verbal, ele deseja agora, além de finalmente ser atendido pela Confederação, virar exemplo para os jovens do bairro onde cresceu, Jardim Roseira, em Campinas. ''Lá a pessoa mais representativa era a que possuía uma arma. Muitos amigos seguiram por esse caminho. O Brasil precisa de mais pontos de referência.''
Vingança - Para Madureira, a conquista de Diogo teve sabor de vingança. Ele mostrava indignação com a eliminação de Débora Nunes, pela manhã, na categoria até 57 quilos. Após empate por 3 a 3 no tempo normal e 0 a 0 na prorrogação com a canadense Shannon Condie, a brasileira perdeu na decisão dos árbitros - da mesma forma em que Wenceslau perdera o ouro no sábado.
O treinador achou que sua pupila foi mais agressiva do que a rival no golden point - ganha quem fizer o primeiro ponto. Madureira argumenta que a brasileira tomou mais a iniciativa: tentou cinco golpes, contra apenas duas da canadense. ''Isso só acontece porque o Brasil não tem representatividade no quadro internacional de árbitros. De qualquer forma, a medalha do Diogo serve como uma resposta.'' (B.C./Agência Estado)


