Londrina recebe proposta de parceria que pode render R$ 4 milhões por ano
PUBLICAÇÃO
sábado, 12 de setembro de 1998
Nelson Cilo e Rogério Fischer 
O Londrina Esporte Clube e a Brazilian Sports Business (BSB) - que atua na área de consultoria, gerenciamento e marketing esportivo - pretendem firmar uma parceria que pode render até US$ 4 milhões anuais ao clube. O consultor-geral da BSB, Marcos Vinicius Contreras, 24 anos, esteve na última quarta-feira na cidade para conversar com o coordenador-geral do Londrina, Célio Guergoletto, que tomou conhecimento dos detalhes preliminares das propostas. O encontro foi realizado no gabinete de Guergoletto na Câmara Municipal - ele é vereador pelo PMDB. Ficou acertado que os dois terão novo encontro, amanhã, quando Contreras apresentará um projeto minucioso de parceria.
Tanto a BSB quanto o Londrina procuram guardar sigilo dos principais itens do possível acordo. Contreras, entretanto, antecipou que a BSB, que mantém escritório em São Paulo, poderia representar o Londrina no mercado internacional, especialmente em três países: Espanha, Itália e Inglaterra.
Arquivo FolhaProfissão de riscoO diretor Célio Guergoletto: Às vezes é humilhante pedir ajudaA empresa intermediaria a transferência de jogadores do Londrina para três dos maiores clubes europeus - ou trazê-los de lá para cá - mas a estrutura sugerida pela BSB é muito mais ampla. Por exemplo: a BSB propõe ao Londrina um ousado perfil de clube-empresa baseado na Lei Pelé. Queremos oferecer uma ampla infra-estrutura esportiva nos mais diferentes níveis, afirma Marcos Vinicius, que prevê um prazo médio de cinco anos para a execução total do novo modelo. Uma das idéias da BSB, segundo ele, é atrair investimentos e eventuais patrocinadores para o Londrina. O objetivo final é conduzir o Londrina à elite do futebol brasileiro, como campeão e não como simples participante, afirma Contreras. Não oferecemos utopia aos torcedores do Londrina, e sim algo concreto, ele garante.
Contreras revela que, antes de mostrar o projeto ao Londrina, a BSB encomendou uma pesquisa de opinião pública em Curitiba para avaliar a viabilidade de investir no Coritiba, no Paraná Clube e no Atlético Paranaense. Como potencialidade, concluímos que o Londrina seria empresarialmente mais interessante, afirma Contreras, que cursou Marketing e Comércio Exterior na Universidade Mackenzie, em São Paulo.
Segundo ele, uma das metas é desmembrar a estrutura do clube, que passaria a funcionar como Londrina S/A e em time de futebol. Mesmo assim, os dois lados se ajudariam financeiramente. O pano de fundo seria a exploração da marca Londrina que, como empresa, prestaria socorro ao futebol. Se você valoriza a marca Londrina, automaticamente puxa os investidores. É claro que o sucesso de tudo depende das respostas da equipe em campo, acredita Marcos Vinicius, que aponta um dos motivos que levam a BSB a apostar no Londrina Esporte Clube. Constatamos de perto o esforço da atual diretoria e do prefeito Belinati para que o Londrina resista à crise que ameaça a própria sobrevivência do clube. Do jeito que as coisas estão hoje em dia, só Deus sabe o que pode acontecer.
As primeiras conversações deixaram Guergoletto entusiasmado. Senti que o projeto é sério. Algo, digamos, que tiraria o Londrina da situação de penúria. Não podemos mais viver humilhados, de chapéu nas mãos, sempre na dependência do poder público, afirma o dirigente.
A seguir, os principais trechos da entrevista que o coordenador-geral do Londrina concedeu à Folha sobre a parceria que ele considera um enorme salto para o futuro.
Folha - Como você encarou a proposta feita pela BSB?
Guergoletto - Percebi seriedade nas explicações do representante da BSB. Sabe quando a pessoa entra na tua sala e te passa confiança? É isso. Confiei nele (Marcos Vinicius). O futebol-empresa é a única saída. Não nos resta outro caminho. É importante pensar grande. Ou a gente vai em frente ou um dia vê que tudo acabou. Não podemos recuar.
Folha - Atualmente, qual a relação receita-despesa do clube?
Guergoletto - Estamos zerados. Quer dizer, no empate. Nossa folha de pagamento, entre funcionários e jogadores, é de R$ 120 mil. Recebemos uma ajuda de R$ 100 mil que o prefeito Belinati repassa e mais R$ 20 mil da iniciativa privada. Ficamos bem no limite. Não é fácil. Para disputarmos a Série A, seria necessário gastar de R$ 250 mil a R$ 300 mil mensais.
Folha - É difícil conseguir patrocinadores na cidade?
Guergoletto - Às vezes é até humilhante. Nem todas as empresas se mostram receptivas. Você perambula aqui e ali e volta de mãos vazias. Muitos empresários daqui ainda não descobriram que o futebol é um alto negócio. É caro mas dá retorno. É lógico que você precisa colocar um time forte em campo para motivar a torcida e os investidores. O torcedor é não bobo. O público de Londrina é exigente. Gosta de qualidade. Está correto.
Folha - Qual é a dificuldade para se buscar recursos?
Guergoletto - Sabe lá o que é não cumprir acordos e cair no descrédito? Tem uma coisa: a atual diretoria tem credibilidade e honestidade. Vivemos uma nova realidade. Lutamos para solidificar o Londrina. Só que a nossa imagem anda desgastada por culpa dos erros e das asneiras do passado. Você sai atrás de dinheiro, mas, de repente, é como se as pessoas pensassem: lá vem ele de novo! É duro, doutor, você sentir-se motivo de gozação.
Folha - O basquete é mais privilegiado pelas autoridades?
Guergoletto - Aliás, o basquete recebe R$ 70 mil mensais através de uma lei de minha autoria, que concede incentivo às empresas que investem no esporte da cidade. Está certo. Nada contra o basquete. Tanto é que o ajudei. Mas acho que o futebol mereceria a mesma atenção. Olha só a diferença: o vôlei paranaense do Rexona movimenta R$ 4 milhões/ano.
Folha - Quais as empresas que você gostaria de atrair?
Guergoletto - Antes, tentamos a Elevadores Atlas, mas o acordo não saiu. Seria ótimo se tivéssemos a Cacique Solúvel, a Dixie Toga, o Shopping Catuaí e outras grandes empresas do município, que poderiam fortalecer a estrutura do Londrina. A Cervejaria Malta está conosco, mas queremos ampliar a parceria.
Folha - Além da Cervejaria Malta, quem mais ajuda?
Guergoletto - Primeiro, o prefeito Belinati, que garante os prêmios dos atletas e ainda repassa o dinheiro de empresários para a folha de pagamento. Sou amigo pessoal do Belinati e acho que isso facilita as coisas. Também quero destacar o apoio da Kumho Pneus, da PVC Brasil, da Energil, da Transportes Coletivos Grande Londrina, da Ultragaz, da Unimed Londrina, do Hotel Cristal, da Principal Vigilância e da SOS Emergências Médicas.
Folha - Você assumiu o Londrina num momento complicado na história do clube. Qual é o teu interesse nisso? Como político e vereador...
Guergoletto - Não, não. Nada disso. Se eu dependesse do futebol para seguir na política, eu estaria ferrado. Peguei o Londrina porque tenho um profundo amor pelo clube. Não me considero cartola. Não sou nada. Eu é que inventei essa coisa de coordenador-geral. Podia ser outro nome. Tanto faz. No dia em que surgir um salvador da pátria, eu caio fora. Não, doutor, não tenho nenhum interesse. O problema é que o cara entra no futebol pra aparecer e tirar proveito próprio. Não é o meu caso. Conheço uns ex-dirigentes que tentaram a carreira política e se deram mal. Nunca se elegeram. Eu me elegi três vezes vereador em Londrina.
Folha - Como você vê a campanha atual do Londrina?
Guergoletto - Vou confidenciar uma coisa: nosso primeiro objetivo foi alcançado, que é o de não cair pra terceira divisão. Hoje temos quase certeza de que o time se classifica para a próxima fase da Série B. O que aconteceu no ano passado, contra o próprio Náutico, não vai se repetir (O Londrina foi eliminado pela equipe pernambucana no playoff da segunda fase). O problema é que, na temporada de 97, teve gente que menosprezou o adversário. Pessoas daqui chamaram o Náutico de timeco pela imprensa. Os comentários chegaram até eles. Deixaram os caras lá embaixo. Aí eles se agigantaram dez vezes mais. Dançamos nos pênaltis. Hoje, a mentalidade do Londrina se modificou. Dos dirigentes aos atletas. Temos um time bastante humilde. Você não vê nenhum medalhão no grupo. Nossos jogadores têm a cabeça no lugar. São experientes e muito responsáveis.
Folha - Como vai o Departamento Amador? Quanto o Londrina investe na escolinha?
Guergoletto - Vai muito bem. Montamos uma nova estrutura. O Iran Campos, o João Severo, o Fábio Scaff e outras pessoas estão fazendo um trabalho sério. Gastamos R$ 12 mil mensais no setor. Destinamos R$ 10 mil mensais em dinheiro à escolinha, além do faturamento proporcional à venda de mil ingressos e de 15 placas de publicidade no Estádio do Café.
Folha - Qual a dívida total do Londrina e como saldá-la?
Guergoleto - Devemos cerca de R$ 2 milhões. Nada que assuste, se analisarmos a crise financeira da maioria dos clubes brasileiros. Se fizéssemos um bom acordo, a dívida ficaria muito mais reduzida. Se revelássemos um grande talento, daria para zerar tudo. Vejam que o Sport pede mais de R$ 4 milhões pelo passe do meia Jackson, agora convocado para a Seleção Brasileira.


