Josoé de CarvalhoZamboni: ‘‘Tivemos dirigentes incapazes e desonestos’’ A Prefeitura confirma a realização de uma auditoria no Londrina, a pedido da Sociedade dos Amigos do Londrina (SAL) e da direção do próprio clube. Em Curitiba, os dirigentes Marcos Alexandre Domingues e Mauro Viotto tentam convencer a Justiça Trabalhista de que a SAL não pode ser responsabilizada pelas dívidas do Tubarão. Na Folha, Murilo Zamboni, 73 anos, que presidiu o clube em 1984/85, mostra a sua preocupação com o que pode ocorrer com o futebol da cidade.
FOLHA - O Londrina está morrendo?
ZAMBONI - Está bem perto da morte. Enquanto o clube deve para comerciantes da cidade, jogadores e treinador, dá para ir levando. Mas das dívidas da Justiça ninguém escapa. Enfrentei dois problemas, quando assumi a presidência e sei como é duro. Imaginem hoje, que são mais de 100 ações.
FOLHA - Esta é a maior crise da história do clube?
ZAMBONI - Sem dúvida que é. Tivemos momentos difíceis, mas nunca vi o clube numa posição tão crítica.
FOLHA - E de quem é a culpa?
ZAMBONI - A primeira culpada é a vaidade de alguns dirigentes, que sempre acharam que as vitórias cobriam tudo. Eles nunca se preocuparam com a estrutura do clube. Nenhuma conquista vale preço tão alto como este. De que adiantou fazer loucuras para conquistar títulos, se éramos vice-campeões estaduais e nem conseguíamos disputar a Copa do Brasil?
FOLHA - O Londrina foi roubado por alguns dirigentes?
ZAMBONI - Se eu disser que alguém roubou, terei que provar. Todo mundo fala, mas ninguém me mostrou até hoje um documento que comprovasse que alguém roubou o clube. Desta forma, prefiro acreditar que houve falta de capacidade ou desonestidade. A carapuça está no ar. Que cada um vista a sua.
FOLHA - A SAL foi uma boa para o Londrina?
ZAMBONI - A SAL salvou a situação. Sem ela, não teríamos nem condições de disputar o Brasileiro com um time razoável. Ela também salvou o Londrina do rebaixamento no Campeonato Paranaense. Além disto, a SAL está construindo um centro esportivo no VGD. É desse tipo de estrutura que o Londrina precisa.
FOLHA - É justo que a SAL pague as dívidas trabalhistas do Londrina?
ZAMBONI - A SAL não é o Londrina. É um grupo independente. O Londrina é de toda a cidade. Quem vai ter que pagar é o Município, que também paga o basquete, o vôlei, os Jogos Abertos e tudo o que se faz aqui em termos de esporte.
FOLHA - A cidade de Londrina gosta de futebol?
ZAMBONI - Se o time ganha, todo mundo gosta. Mas muito poucos se preocupam em estruturar o time da cidade. Pouquíssimos, quase ninguém.
FOLHA - Quando entregou a presidência, o senhor entregou o clube sem dívidas?
ZAMBONI - Não apenas sem dívidas, mas também com 20 milhões de cruzeiros (era o dinheiro daquele tempo), que sobraram da venda do zagueiro Zequinha ao Grêmio Maringá. Eu estava guardando aquele dinheiro para comprar um ônibus para transportar os jogadores. Vendi também o zagueiro Roberto Fonseca, por 150 milhões, e paguei o que o clube devia aos diretores Ismael Salim e Ivan Prado. Só o Fiori Luiz, que tinha colocado 20 milhões no clube, não quis o seu dinheiro de volta. Negociei com grandes clubes, como Santos, Ponte Preta, Bahia, São José e Botafogo-BA, e não fiquei devendo para ninguém. E não deixei problemas trabalhistas para as gestões seguintes. Está tudo lá, na contabilidade do clube.
FOLHA - Separar o futebol da sede campestre pode ser a solução para o Londrina?
ZAMBONI - Separar o quê? O futebol do Londrina não existe mais. Sem dívidas, a sede campestre tem plenas condições de sobreviver e realizar algumas obras.
FOLHA - O que fazer para tirar o clube do sufoco?
ZAMBONI - Não há outra saída senão entregar o time ao Poder Público. Se a cidade quer continuar tendo futebol, vai ter que segurar esta bronca. Do contrário, o futebol londrinense acaba mesmo. Não acho que uma auditoria possa salvar o clube.

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