Os xerifes foram heróis do Londrina no Café
34 anos após título de 1992, Tubarão volta a decidir um Paranaense em casa
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sexta-feira, 06 de março de 2026
34 anos após título de 1992, Tubarão volta a decidir um Paranaense em casa

O Londrina decide o Campeonato Paranaense de 2026 neste sábado (7) diante do Operário, às 16h, no estádio do Café. Será a primeira final de Estadual disputada em casa pelo Tubarão após um hiato de 34 anos. Nesse intervalo, o clube ainda conquistou dois títulos, em 2014 e 2021, mas ambos longe de seus domínios. Por isso, a conquista de 1992 permanece como um marco especial na memória do torcedor alviceleste.
A equipe daquele ano reunia uma mistura de jovens vindos das categorias de base com atletas experientes no futebol paranaense e nacional. O elenco não chamava tanta atenção pelo brilho individual, mas se destacava pela organização e pela entrega em campo. A campanha teve episódios marcantes: uma sequência curiosa de dez empates consecutivos, a eliminação do Athletico Paranaense na semifinal, em Curitiba, nos pênaltis, e a decisão contra o então rival União Bandeirante, resolvida em três partidas no estádio do Café.
Naquele grupo, dois defensores acabaram eternizados: Márcio Alcântara e João Neves. O primeiro havia retornado ao Londrina após passagens por clubes como Palmeiras e Sport. O segundo voltava ao clube para aquela temporada e acabaria autor do gol que decidiu o campeonato.
“Nosso time tinha jogadores de seleção brasileira de base. Tínhamos uma base muito boa subindo para o profissional. Era um elenco forte. Depois muitos desses jogadores cresceram e eu tinha quase certeza de que poderíamos chegar longe. Para muita gente foi uma surpresa agradável, mas nós sabíamos da qualidade do grupo. Não éramos azarões. Éramos uma equipe coesa e tecnicamente muito boa, capaz de enfrentar os times da capital, que eram considerados mais fortes”, relembra João Neves em conversa com a FOLHA.
Foi dele o gol que garantiu o título alviceleste. No terceiro jogo da decisão, em 19 de dezembro de 1992, o Londrina venceu o União Bandeirante por 1 a 0, no Café. O lance decisivo veio em uma jogada de bola parada, arma que o time treinava constantemente.
“Nos treinamentos, trabalhávamos muito a bola aérea. Eu, o Souza, o Cláudio José, o Leco, todos cabeceávamos muito bem. O Roberto colocava a bola na nossa cabeça com a mão. Ele batia muito forte, o que facilitava para nós no cabeceio. No lance do gol, deu tudo certo. Ele bateu forte, eu subi e escorei no canto direito do goleiro. Foi uma sensação maravilhosa. Às vezes até hoje eu vejo o vídeo do jogo e penso: ‘Será que fui eu mesmo que fiz esse gol?’”, conta o ex-zagueiro.
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Hoje morador de Londrina, o carioca ainda revive o momento com emoção. “Foi um momento que marcou a minha vida, a vida de muitos jogadores e também de muitos torcedores. Já se passaram 34 anos e parece que foi ontem. A gente revive aquilo com muita emoção, porque demos um título muito importante para a cidade”, afirma.
Antes do gol decisivo, porém, o Londrina precisou sobreviver a um drama no segundo jogo da final. Depois de empatar a primeira partida por 0 a 0, o Tubarão saiu perdendo por 2 a 0 para o União Bandeirante no confronto seguinte. O cenário parecia encaminhar o título para o adversário. A reação começou quando Tadeu diminuiu o placar. Já nos minutos finais, surgiu o empate salvador, marcado pelo capitão Márcio Alcântara.
“Eu não acreditei quando vi a bola sobrando ali. Eu tinha essa especialidade de fazer gol de peixinho no segundo pau. Já tinha marcado muitos assim. Como eu não sou alto, ficava sempre naquela posição. Quando fiz o gol, passei na frente do banco do União sem saber o que fazer e fiz um gesto. Foi um desabafo, porque eles já falavam que o título estava decidido. A minha sensação foi de agradecimento por poder dar aquela alegria para o torcedor que ficou o tempo todo ali no estádio”, recorda.
O empate por 2 a 2 levou a decisão para o terceiro jogo, mas também teve uma consequência importante. Márcio recebeu cartão amarelo na partida e ficou suspenso para o confronto decisivo. "Na verdade, se fosse hoje em dia eu teria sido expulso no primeiro tempo, de tanta 'pegada' que eu dei nos caras aquele dia. O time estava exposto e era mano a mano toda hora", lembrou o ex-defensor. "Mas aquele dia eu fui realmente um capitão, incentivei o time, gritei o jogo todo, até conseguirmos o empate", seguiu Márcio.
Quem entrou em seu lugar foi justamente João Neves, autor do gol do título.
“Quando eu saí, fiquei tranquilo, porque sabia que o João daria conta. Ele estava com a minha camisa. Até brinquei com ele no treinamento: ‘João, seria demais se você fizesse o gol’. Parece que estava escrito mesmo. Ele mereceu”, diz o ex-capitão.
João Neves lembra que o técnico Varlei de Carvalho utilizava bastante o rodízio no sistema defensivo, alternando jogadores para manter o grupo motivado.
“O Varlei mexia bastante no time. Às vezes eu ficava fora, às vezes entrava. Ninguém tinha ciúme de ninguém. Claro que ficar fora nunca é bom. O jogador sempre quer estar em campo, lutando com os companheiros”, conta.
Separadamente, já que não atuaram juntos em nenhum dos três jogos decisivos, Márcio e João Neves tiveram de lidar com um União Bandeirante rápido, insinuante e competitivo. A força do adversário não estava apenas dentro de campo, mas também fora dele, personificada em Serafim Meneghel, a quem João Neves, em tom bem-humorado, chamou de “o Castor de Andrade do União”, numa referência ao histórico patrono do Bangu nos anos 1980.
“O União tinha um time muito forte e tinha o Meneghel, o Castor de Andrade deles”, disse João Neves. “Nós sabíamos da força deles e que chegariam à final. Eles tiraram o Paraná. E quando o Meneghel aceitou o desafio de fazer os três jogos em Londrina foi impressionante. Poderiam ter mandado um em Maringá, mas ele disse que seria campeão contra a gente no Café”, recordou.
Márcio também relembra o clima do segundo confronto e admite que, antes de marcar o gol que forçou o terceiro jogo, chegou a acreditar que o título ficaria com o rival. O capitão alviceleste contou que chegou a parabenizar Wanderley Jacomin, então jogador do União e que mais tarde defenderia o LEC.
“Quando teve a falta, eu virei para o Jacomin, que estava me marcando, coloquei a mão no ombro dele e falei: ‘Wanderley, parabéns, vocês mereceram. Perdemos para um time que merece’. De repente veio a falta, a bola ficou na minha frente, ele parado, e eu só dei o peixinho e fiz o gol. Foi um jogo de superação. Tivemos a força de querer vencer e provar que tínhamos que ser campeões naquele ano”, afirmou.
Na torcida pelo hexa
Mais de três décadas depois, Márcio Alcântara e João Neves vão acompanhar a decisão entre Londrina e Operário. Ambos demonstram confiança em um novo título estadual do Tubarão.
“Eu, como torcedor, todo ano acho que o Londrina vai ser campeão de alguma coisa. É muito bonito ver torcedores que acompanharam aquela época levando seus filhos para o estádio. Isso mostra a força do clube na cidade. Eu também estou feliz porque o meu filho, que não estava em 92, vai estar agora”, afirma Márcio.
João Neves também acredita no potencial da equipe atual, mas faz um alerta sobre o peso de uma decisão.
“Eu confio no time. A equipe tem qualidade e personalidade. Às vezes jogar em casa traz uma euforia maior, mas decisão é decisão. O Operário também tem uma boa equipe. A vantagem é atuar diante da torcida, e isso precisa se transformar em atitude dentro de campo: fazer o gol, buscar a vitória e depois comemorar”, diz.
O capitão de 2026
Entre os protagonistas da decisão deste ano está o zagueiro Wallace, capitão do Londrina. Líder do elenco atual, ele foi citado pelos ex-jogadores como peça fundamental para a busca pelo sexto título estadual do clube.
“O Wallace é um zagueiro fantástico: frio, técnico, sabe sair jogando e marca muito bem. É um defensor completo. A gente torce para que o sistema defensivo consiga segurar o ataque do Operário”, afirma João Neves.
Márcio Alcântara também destaca a importância da experiência do capitão em jogos decisivos.
“Ele é um cara vitorioso, acostumado com decisões. O futebol que ele está jogando já fala por si. Mas o principal vai ser ajudar a controlar a ansiedade do grupo. Em decisão, o que mais atrapalha é a ansiedade. Às vezes o mais jovem não dorme direito, não se alimenta bem. É aí que o experiente precisa mostrar que é um jogo como outro qualquer, mesmo com a responsabilidade enorme. São cerca de 20 mil pessoas no estádio torcendo por eles, e depende só deles”, conclui o capitão do time campeão de 1992.


Matheus Camargo
Repórter de Esportes, com foco no Londrina Esporte Clube.





