Livro põe o futebol nos trilhos
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 15 de novembro de 2002
Luiz Claudio Oliveira<br> Equipe da Folha 
Curitiba - Finalmente o futebol brasileiro foi colocado nos trilhos. O publicitário e escritor Ernani Buchmann acaba de lançar pela Imprensa oficial do Paraná, o livro ''Quando o Futebol Andava de Trem Memória dos times ferroviários brasileiros'', uma pesquisa de três anos sobre a influência das estradas de ferro no futebol nacional. Na verdade, Buchmann levantou dados históricos de cerca de 100 clubes nascidos graças à cooperação dos ferroviários.
''Quando iniciei, esperava falar sobre uns 15, acabou em mais de 100 e ainda tem alguns que ficaram de fora'', conta o escritor. Assim que o livro ficou pronto, recebeu uma correspondência com a história do Ferroviário Esporte Clube de Sobral (CE), que deve ficar para a segunda edição. Buchmann lançou a obra domingo passado, durante a 48 Feira do Livro de Porto Alegre e o lançamento em Curitiba deverá ser no mês de dezembro, em data ainda não definida.
Na pesquisa, algumas conclusões como a de que o futebol já estava presente no Brasil mais de uma década antes de Charles Miller organizar por aqui a primeira partida oficial, em 14 ou 15 de abril de 1895 (a data é imprecisa) com o São Paulo Railway e a Companhia de Gás de São Paulo. E o esporte chegou justamente pelas mãos dos engenheiros e ferroviários ingleses que realizavam peladas em campos improvisados ao lado de cada estação.
''Quando o Futebol Andava de Trem'' leva o leitor a uma viagem pelos times ferroviários começando pelo Rio Grande do Sul e seguindo em direção ao Norte do País. Não segue uma ordem cronológica, mas espacial, ao longo das estradas de Sul a Norte. Coincidentemente, ou não, o mais velho clube brasileiro, o Rio Grande, fundado em julho de 1900, fica no Rio Grande do Sul.
O livro também mostra que os times ferroviários, ao contrário de tantos outros no início do futebol brasileiro, não discriminavam. Eles agregavam membros de várias etnias, a começar pelos ingleses e franceses, principais artífices das estradas de ferro do País no início do século passado, mas passando também por portugueses, brasileiros e africanos e descendentes.
Estes times viveram a época de glórias entre as décadas de 40 e 50, quando eram organizados e tinham ligações diretas com as comunidades feroviárias, que eram bastante fortes. Os craques eram contratados pelas empresas, que pagavam os salários para que eles apenas jogassem futebol. Além disso, era descontado na folha de pagamento de todos os funcionários uma pequena porcentagem que era utilizada para a manutenção dos clubes.
A euforia durou até a década de 60. Com Juscelino Kubitschek, foi dada a preferência para a indústria automotiva e em seguida, depois de 1964, com o início da ditadura militar, a malha ferroviária brasileira foi estatizada e a fornalha dos subsídios para os clubes de futebol foi apagada. A partir daí, a administração desses clubes foi descarrilando. Muitos deles desapareceram ou entraram em um ostracismo, enquanto outros tiveram que fazer fusões para conseguir enxergar alguma luz no fim do túnel.


