Livre do estigma de 90, Dunga vê o time preparado para vencer
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sábado, 11 de julho de 1998
Isabel Tanese e Arnaldo Ribeiro Agência Estado 
Quando o árbitro Said Belqola apitar o término da partida entre a Seleção Brasileira e a Francesa estará também encerrando um marco na história do futebol nacional: a Era Dunga. Carlos Caetano Bledorn Verri não gosta de ficar pensando nisso. Foram 15 anos de Seleção: 3 Copas do Mundo, 96 convocações, 94 partidas sendo que 17 delas em Mundiais, 7.840 minutos em campo e 7 gols. Muitas alegrias e muitas, muitas críticas. Foi considerado um dos responsáveis pelo fracasso do time na Copa da Itália, em 1990. Odiado por muitos, a cada vez que vestia a camisa da Seleção era, muitas vezes, escorraçado.
Hoje, Dunga conquistou o respeito da maioria. Líder da equipe, é quem coloca ordem no time, briga com os companheiros. É quem, nos desarmes perfeitos, mostra a garra de quem ama a camisa da Seleção. O torcedor enxergou isto e a Era Dunga deixou de ser sinônimo de incompetência para se tornar palavra de coragem e liderança. Dunga, hoje, poderá estar se despedindo da Seleção Brasileira com um gesto histórico: levantando a taça de campeão pela segunda vez consecutiva. Este é agora seu maior sonho. O que virá depois ele ainda não sabe. Mas deixa claro: não abandonará o esporte. Aos brasileiros que estão longe do campo, ele deixa uma mensagem: Tenham fé. Faremos de tudo para conquistar este título. Todo sacrifício valerá a pena.
Agência Estado - Você se despede amanhã (hoje) da Seleção Brasileira. O que passa pela cabeça de um jogador neste momento?
Dunga - Não penso muito na despedida, nessa coisa meio melancólica. É o meu último jogo, mas eu vou encarar como se fosse o primeiro, como eu sempre fiz. Toda vez que eu entro em campo, eu entro com amor.
AE - Qual é o balanço que você faz desses 15 anos de Seleção? Você acha que marcou época?
Dunga - Eu vejo um saldo positivo. Acho que realizei um bom trabalho, mas quem tem de analisar são vocês jornalistas e, principalmente, os torcedores. Eu me sinto satisfeito, feliz, de alma e espírito. Você jogar uma só vez pela Seleção já é um grande prêmio. Imagine disputar quase 100 partidas e três Copas do Mundo? Não tenho palavras para descrever o que eu sinto. Sou um patriota.
AE - Ao longo desses anos, você construiu uma imagem de líder da Seleção. O que é mais difícil: lidar com os mais diferentes tipos de egos ou simplesmente jogar?
Dunga - Eu acho que essa coisa de líder nasce com a pessoa. Eu gosto de vencer e brigo para vencer. Eu acho que você não pode se omitir. Tem de enfrentar as situações e assumir as responsabilidades.
AE - O Dunga é uma pessoa equilibrada?
Dunga - No geral, sim. Mas é difícil manter o autocontrole o tempo todo. Às vezes, você perde esse equilíbrio. A responsabilidade é muito grande. No Brasil, você tem de ser o número 1, o campeão; caso contrário, não presta.
AE - Qual foi a sua maior alegria nesses anos de Seleção?
Dunga - Se você quer que eu diga qual foi o título mais emocionante, eu digo que foi o da Copa de 94. Mas desde que eu fui convocado pela primeira vez, em 1982, eu sinto a mesma alegria. Toda a vez que eu escuto o hino nacional, eu sinto essa mesma alegria.
AE - Qual foi a sua maior mágoa?
Dunga - Não digo mágoa, mas ficaram algumas cicatrizes fortes e marcantes depois que perdemos a Copa de 90. Ninguém gosta de ser criticado como eu fui.
AE - O que você pensa desses seus críticos?
Dunga - Em geral, eu aproveito as críticas para pensar, para refletir, para melhorar. Mas eu sempre consegui separar as críticas construtivas das destrutivas. É sempre assim. Na derrota, eles têm de pegar um Cristo para massacrar. No futebol, é assim mesmo. Não dá para você se enganar. Mas quando eu sofro uma crítica fundamentada, eu fico puto comigo mesmo, não com quem fez. A gente tem de melhorar sempre.
AE - Você se sente ou se sentiu perseguido?
Dunga - Eu não me sinto perseguido. Acho que sou mais criticado do que os outros porque tenho essa imagem de durão, fechado e frio, apesar de ser um cara como outro qualquer. O que acontece é que eu nunca me coloco como vítima e as pessoas gostam daqueles que fazem isso. Mas Deus me deu a força da reação.
AE - O Dunga é um homem realizado?
Dunga - Não! Como atleta, ainda falta ganhar este título na França. Eu tracei esse objetivo e vou atrás dele.
AE - Por que você não trouxe seus familiares para a França, como fizeram quase todos os jogadores?
Dunga - Quando eu estou na Seleção Brasileira, procuro pensar só na Seleção Brasileira. Não posso me preocupar com a comida do meu filho ou se a minha mulher tem ingresso para o jogo. Isso tira a minha concentração. Hoje (ontem), a partir do meio-dia, eu desligo o meu telefone e não recebo mais bilhete, mais recado porque tenho de me concentrar na decisão. Eu digo aos meus familiares que já consegui muito e posso conseguir mais, me consagrar, em apenas 50 dias. Eles entendem isso e se sacrificam por mim. Eu jamais vou expor a minha família. Se a minha mulher (Wanda), por exemplo, disser uma palavra mal colocada, pode conturbar todo o ambiente da Seleção. Quanto menos eles aparecerem, melhor. Quem tem de aparecer, quem é o astro, sou eu.
AE - Você disse que vai consultar a família em dezembro para decidir se continuará jogando...
Dunga - Chegou o momento deles decidirem. Eles sempre se desdobraram para me acompanhar por todos os cantos do mundo. Os meus filhos (Gabriela, de 12 anos, e Bruno, de 9) praticamente só viveram fora do Brasil. Pelo lado cultural, é ótimo: falam italiano, alemão e inglês e conheceram países importantes. Mas chega uma hora em que é preciso retornar às origens, ao Brasil. Você não vive só de cultura, vive de amizade, de sentimento e os meus filhos precisam disso.
AE - Você já decidiu o que vai fazer quando encerrar a carreira? É verdade que será técnico?
Dunga - Eu preciso amadurecer a idéia ainda. Para ser técnico, é necessário passar por alguns estágios antes. Mas está praticamente definido que eu vou continuar trabalhando no futebol. Se eu fosse mudar de carreira, teria de começar tudo do zero.
AE - Qual é a mensagem que você pode passar para o torcedor brasileiro, que está esperando e torcendo ansiosamente pelo pentacampeonato?
Dunga - Digo para eles terem fé porque nós faremos tudo o que é possível para conseguir esse título, um sonho para os brasileiros. Todo sacrifício vai valer a pena e ficará pequeno perto do que podemos conseguir. Posso dizer que todos vão entrar com muita alegria. Tivemos os problemas de sempre na fase da preparação, mas quando os jogos começaram, tudo ficou mais fácil. Todo mundo passou a falar só das partidas. Além de tudo, a comissão havia passado uma programação, que previa o crescimento gradual do time, estágio por estágio. E foi assim mesmo. Nós fomos ganhando confiança e hoje estamos preparados para vencer.


