''Tive uma infância de sonhos, sempre pensando em jogar futebol''. Mineiro de Matozinhos, o técnico Lívio Vieira, 48 anos, não poderia imaginar que sua carreira de treinador pudesse proporcionar um episódio que por pouco não lhe tirou o direito de viver. Casado, duas filhas, Lívio recebeu em sua casa, no Conjunto Semiramis (Zona Norte), a reportagem da Folha, oito dias depois de sofrer um Acidente Vascular Cerebral (AVC). Mais calmo, já em condições de receber visitas, o ex-jogador do Londrina e Cruzeiro ainda sofre com o déficit de movimentos do lado esquerdo do corpo, principalmente do braço. Lívio, no entanto, aposta no apoio da família e dos amigos para dar a volta por cima. ''Meu fisioterapeuta disse que daqui a pouco tempo estarei correndo como nunca'', projetou.
Folha - Você imaginou que isso poderia acontecer algum dia?
Lívio - De forma alguma. Até porque sou uma pessoa muito católica. E nas orações a gente pede muita sabedoria e calma. No sábado, estava emocionado e chateado, mas vim tranquilo pra casa, embora preocupado com o resultado do jogo (empate). Tomei uma cervejinha, estava sentado no sofá, quando minha esposa me disse: será que você merece tudo isso? E eu falei: nós somos merecedores do que Deus coloca em nossa vida. No domingo, levantei muito tranquilo, e tive aquele acidente no banheiro. Já lá no hospital, vi o médico falando em AVC e pensei: tive um derrame. Foi então que tive medo de morrer. Olhei pra minha esposa e filhas. Pensei na possibilidade de estar em cadeira de rodas. Fiquei muito, mas muito preocupado mesmo.
Folha - O que mais você pensou naquela noite de sábado para domingo?
Lívio - Decidi que deveria pensar primeiro na minha família. Não posso querer ser o melhor se a condição que eu tinha no momento não era para ser o melhor. Eu tentei dar uma satisfação ao torcedor, à comunidade, mostrar que com meu potencial o time poderia estar numa situação um pouco melhor do que agora, mas era praticamente impossível. E olha que os jogadores se desdobraram dentro da capacidade e limitações de cada um. Mas não foi o suficiente. Estas preocupações são normais. E isso me levou talvez ao estresse emocional que ocasionou o acidente. Hoje estou mais consciente. O trabalho dignifica, enobrece, mas também adoece. E eu não quero adoecer ao trabalho.
Folha - Você poderia descrever como foi o momento?
Lívio - Não senti dor nenhuma e também não perdi a memória. Na hora que caí pensei: o que será que está acontecendo? Eu poderia ter batido a cabeça na pia ou no vaso, o que seria mais grave, mas bati na parede. Então minha esposa ouviu o barulho e não conseguiu me levantar. Eu também tentei me levantar sozinho, mas não consegui. Meu vizinho me ajudou e chamou a ambulância, tudo isso às 7 horas da manhã... Acordei como acordo todos os dias. Sou eu quem faz o café, gosto de ler jornal logo cedo, me mantenho atualizado. Mas caí no banheiro e dei um susto tremendo nas minhas filhas. Fui levado ao hospital e muito bem socorrido.
Folha - O que veio à mente quando estava no hospital?
Lívio - Passou muita coisa na cabeça. Com sentia pouca mobilidade na minha perna e braço, do lado esquerdo, fiquei preocupado em caminhar com o auxílio de muletas. Eu que gosto de jogar futebol com os amigos fiquei com a preocupação de quando poderia voltar a jogar. Quando será que vou voltar a fazer o que gosto? Eu lamentava muito isso, mesmo não sendo profissional. Me preocupou essa possibilidade de andar arrastando a perna. Porque homem não deve ter dó de homem. E não quero ninguém que tenha dó de mim.
Folha - E apoio da família, amigos, time?
Lívio - Essencial. Eu sempre falo que atrás de um grande homem há uma grande mulher. Fiel companheira não me deixa faltar nada. O homem tem que saber escolher, e eu fiz a escolha certa. Minha casa ontem (domingo) ficou lotada de amigos na hora do jogo, e quando terminou, um deles parou o carro e gritou: o LEC ganhou. Tudo isso me deixa muito satisfeito.
Folha - O que o futuro pode reservar para o técnico Lívio Vieira?
Lívio - Sabe que tenho um sonho de treinar uma equipe grande e o Cruzeiro é uma delas. Pode escrever que vou ser treinador do Cruzeiro um dia, não sei quando, mas vou ser. É um desafio da minha vida. Uma vez no leito em que meu pai faleceu (1992), ele disse pra mim: caboclo, crédito, ande sempre de cabeça erguida para você chegar onde quer. E eu falei pra ele (emocionado) um dia: meu pai um dia vou ser treinador do Cruzeiro. E isso ele está esperando lá de cima.

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