De passagem por Londrina, onde a sua equipe, Franca, veio jogar contra a Inesul - o time paulista venceu por 69 a 52 -, pela 7 semana do Nacional de Basquete Masculino, o ex-técnico da seleção brasileira, Hélio Rubens, falou à Folha sobre a crise atual do basquete brasileiro e apontou caminhos para se tirar a modalidade da situação a que chegou.

O Campeonato Nacional ficou enfraquecido, com a divisão dos clubes em dois grupos (da CBB e da Nossa Liga), o nível técnico despencou e a desorganização administrativa foi tanta que o último Nacional sequer chegou a terminar, devido a ações judiciais. Internacionalmente, o nível da seleção brasileira masculina também caiu e o time fez, em 2006, sua pior campanha em Mundiais, com um 19º lugar no Japão.

Nesta entrevista, Rubens aposta na retomada da credibilidade da modalidade, a partir da criação da comissão dos clubes, que, segundo ele, será o embrião para a formação de uma Liga Brasileira. ''Essa entidade virá fortalecer as equipes, inclusive finaceiramente, e decidirá sobre a realização das competições. À CBB cabe apenas as questões administrativas, como registro de jogadores e regulamento'', frisou o treinador, que disse que a centralização de poder nas mãos da CBB nos últimos anos foi ''nefasta''.

Hélio Rubens teve longa carreira como jogador e como técnico foi o mais vitorioso do País, com nove títulos em 16 edições disputadas do Campeonato Nacional. De volta ao Franca em 2005, após conquistar títulos no Vasco-RJ e no Uberlândia-MG, Rubens reestruturou a equipe local, hexacampeã brasileira, e hoje seu time lidera tanto o Campeonato Paulista quanto o Nacional.

Folha - Como você avalia esse Campeonato Nacional de 2006/07, com cinco equipes a menos que no ano passado e que não teve um classificatório nos Estaduais para selecionar apenas as melhores times?

Hélio Rubens - É uma situação delicada e angustiante, porque várias equipes fortes de São Paulo, como Assis, Limeira, Araraquara e Pinheiros, que não estão disputando o Nacional, na verdade não vão disputar outra Liga. E as razões são financeiras. Isso baixa o nível do campeonato. Mas felizmente este ano os clubes exigiram a autonomia para assinar todo e qualquer contrato, o que irá melhorar as competições. Não será mais a CBB que irá decidir as principais ações.

Folha - Quais contratos os clubes irão gerir?

Hélio Rubens - Todos, seja o fornecimento da bola do campeonato, do material esportivo, a contratação de uma empresa de marketing, o que nunca houve, a comercialização dos espaços publicitários e o próprio televisionamento das partidas. A nova comissão de clubes, criada ano passado, será o embrião para a formação de uma Liga dos Clubes, que irá gerenciar contratos e prestará um grande serviço ao basquete. Já os órgãos dirigentes ficarão responsáveis apenas por transferências e trâmites oficiais.

Folha - Os clubes decidirão sobre os próximos campeonatos?

Hélio Rubens - Sim, vão definir sobre o formato e a duração já do próximo Nacional, verão se já dá para criar uma Série B, para termos acesso e descenso, como existe no mundo inteiro e só não aqui no Brasil. Os clubes terão autonomia também para gerir receitas e se sustentarem. E isso só aconteceu por conta de tudo o que aconteceu de errado no nosso basquete nos últimos anos.

Folha - Os erros aconteceram em virtude da centralização de poder?

Hélio Rubens - Toda concentração de poder nas mãos de uma entidade, como a CBB, é nefasta. Estamos perdendo muito tempo, porque não estamos inovando em nada. O mundo inteiro já tem Ligas de Clubes há muito tempo. Aqui no Brasil essa idéia de criar a Nossa Liga (NLB) foi muito boa, mas ela foi pessimamente administrada e por isso caiu no descrédito. Precisamos fazer algo profissional.

Folha - Falando de seleção, a que você atribui o péssimo desempenho do Brasil no último Mundial?

Hélio Rubens - Em 2002, quando convoquei para a seleção estes jogadores que hoje estão na Europa e na NBA (casos de Lendrinho, Nenê, Guilherme e Anderson Varejão), na época eles não tinham experiência internacional. No último Mundial do Japão eles corresponderam, mas lamentavelmente, por falta de comando do time, o Brasil, que já foi duas vezes campeão mundial, ficou na pior colocação de sua história, em 19º lugar. Percebemos um time totalmente desestruturado taticamente, apático, sem comando, sem liderança. Espero que a Confederação tome reais providências com relação a isso, porque foi um verdadeiro fiasco, um vexame.

Folha - O Brasil não se classificou para as últimas duas Olimpíadas. O nível internacional está mais alto ou a seleção é que caiu?

Hélio Rubens - O nível do jogador brasileiro, individualmente, é ótimo. O problema é o aspecto coletivo, o preparo da equipe, o comando, para fazer eles produzirem o que sabem. Há hoje 16 potências no basquete e o Brasil é uma delas. Mas tem que fazer valer essa posição.

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