São Paulo, 10 (AE) - Amigos há quase 30 anos, Levir Culpi e Luiz Felipe Scolari se tornaram verdadeiros rivais nos últimos anos por terem se confrontado em diversas finais de campeonatos. Neste domingo à tarde, no Morumbi, os dois vão ter o gostinho de se enfrentar pela primeira vez num clássico paulista.
Eles vivem situações diferentes, afinal, Scolari acabou de conquistar o Torneio Rio-São Paulo e voltou às graças da torcida palmeirense. Levir ainda não conseguiu bons resultados no Tricolor e precisa provar que tem condições de dirigir um grande clube paulista.
No entanto, ambos têm a necessidade de vencer o clássico. O Palmeiras tropeçou na estréia ao empatar com o Guarani e, num campeonato de curta duração, não se pode dar ao luxo de perder mais pontos. A equipe do Morumbi luta para resgatar a confiança dos são-paulinos, perdida há anos.
"É ruim ganhar de um amigo, porque, depois do jogo, nem sabe o que dizer para ele." Scolari e Levir tornaram-se amigos em 1971, em Curitiba. Na ocasião, o técnico são-paulino era zagueiro dos juniores do Coritiba e Scolari foi à capital paranaense para fazer testes. Mais tarde, Levir atuou no Juventude, clube no qual encerrou a carreira de jogador e iniciou a de treinador, e estreitou o relacionamento com Scolari, que defendeu por muitos anos o rival Caxias. Em 97, já como técnicos, trabalharam juntos no Japão, onde a amizade cresceu.
Até dentro de campo os dois tinham algo em comum: eram zagueiros. "O Levir teve mais sorte do que eu porque atuou em equipes mais qualificadas, como Interl-RS e Coritiba", diz Scolari. "Mas tinha técnica." Levir, porém, não retribui os elogios ao colega. "O Felipão foi muito pior do que eu."
Curiosamente, Luiz Felipe Scolari e Levir Culpi começaram a se projetar na função de treinador na mesma equipe, o Criciúma. Em 91, Scolari conquistou a Copa do Brasil e, no ano seguinte, Levir assumiu a equipe na disputa da Copa Libertadores. "Foi o maior título de minha carreira, porque ganhar com times que têm uma estrutura como a do Palmeiras é fácil."
Levir também fez bom trabalho. Levou o Criciúma às quartas-de-final da Libertadores e foi eliminado pelo São Paulo.
A dura rotina de viagens, treinos e concentração não permite que os velhos amigos encontrem tempo para sair em São Paulo. Como são caseiros, preferem usar as poucas horas que têm para ficar com a família. Conseguem conversar somente quando encontram-se em programas de televisão, jogos ou eventos. A última vez que se viram foi há duas semanas, na comemoração de um ano da Fundação Gol de Letra.
"É difícil nossas famílias saírem porque a esposa do Levir está sempre cuidando dos restaurantes que eles têm em Curitiba"
conta Scolari. Levir comemora o sucesso de seus dois restaurantes, que têm como especialidade a comida mineira. "Um dia posso pensar em abrir um em Porto Alegre em sociedade com o Felipão."
Os colegas não são muito parecidos na preferência musical. Enquanto o palmeirense é fã de duplas sertanejas, como Zezé di Camargo e Luciano e Gian e Giovani, Levir Culpi não quer ver um cantor "country" nem pintado de ouro em sua frente. Nos dias de folga, o são-paulino prefere frequentar teatro.
A amizade dos dois, porém, tem seus intervalos. Em 98, uma grande rivalidade entre os treinadores surgiu, porque Palmeiras e Cruzeiro, na época dirigido por Levir, travaram os mais emocionantes duelos do ano e decidiram três títulos. Scolari se deu bem e conquistou a Copa do Brasil e a Mercosul ao vencer o time mineiro. Levir eliminou o Palmeiras no Campeonato Brasileiro, mas acabou, mais uma vez, derrotado na final pelo Corinthians.
Em 95, num jogo entre a Portuguesa de Levir e o Grêmio de Scolari, em Chapecó, os treinadores quase brigaram, mas não saíram da ameaça.
Scolari já ganhou quase tudo na carreira, mas ainda quer dois títulos: o paulista e o mundial. Levir, por outro lado, vem carregando a fama de pé-frio por sempre perder nas finais. Seu principal título foi o da Copa do Brasil de 96 dirigindo o Cruzeiro, que derrotou o Palmeiras de Wanderley Luxemburgo na final. Naquele mesmo ano, a equipe de Palestra Itália conquistou seu último Paulista. "Se o time chega à final, é porque tem qualidade; mas apenas um pode ganhar", explica-se Levir, que tem, este ano, uma ótima chance de dar o troco no amigo.
O rótulo que os dois carregam, de chorão, vai ser mostrado hoje em campo. Antes mesmo do jogo, Scolari e Levir já começam a bater boca via imprensa. "Nem sei o que o Scolari vai aprontar dessa vez; contra o Guarani já reclamou da arbitragem", lembra o técnico tricolor.

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